quarta-feira, 24 de julho de 2013

Série Cowboys do Vale 9 - Entre o amor e a vingança

Resumo: Por trás de uma aparência tranquila, de olhar sereno e manso, de uma voz de
dublador de filmes de amor, de bom moço, escondia-se um vulcão pronto para explodir e que
era contido a duras penas. Rancoroso e vingativo, jamais esquecia uma desfeita. Se alguém
ousasse desafiá-lo , ia até as últimas consequências mas dava o troco, custasse o que custasse.
Mas encontrara naquela mulher uma adversária a sua altura. Ela demorara anos para fazê-lo
pagar a afronta que ele lhe fizera.  Ele a humilhara, a envergonhara, fizera com que ela
derramasse lágrimas de sangue diante de toda uma cidade. Fora duramente cruel com ela! Arrasara
com sua vida! E agora o tinha em seu bolso, na palma de sua mão, bem aonde ela planejara cuidadosamente
por longos anos! Como ousavam chamá-lo de impiedoso
diante da vingança dela?
capitulo 1

    Ele Acabava de sair do restaurante de seu amigo Guilherme Lobo e agora   descia pela
rampa do navio que fora construído dentro do largo rio e que era um shopping center
cheio de ,  bares, lojas dos mais variados tipos e um elegante hotel e que, por ser uma
cidade rural e turística, aquela construção um tanto inusitada era uma irresistível atração
para quem tinha dinheiro para gastar.
    E não era só isso que aquela cidade do interior tinha a oferecer aos seus visitantes.
Havia a boate exclusiva para homens endinheirados, o Le Mirage. Ao lado do clube havia um
lago artificial com jetsky e um luxuoso iate, além de um clube de golfe.
    Todos naquela cidade sabiam que o  foragido ex prefeito construíra seu navio em
meio ao rio só por que invejava o iate hotel que havia no lago dos Vartan.
    Além dessas preciosidades, a cidade oferecia também um tipo de turismo para aqueles
que gostavam de esportes radicais e de aventura. Assim, a canoagem, o arborismo,
as trilhas, o trekking, o rafting, o paintball, o parapente, o motocross, o  mountain bike,
o bungee jumping, a tirolesa, o montanhismo, o rapel eram algumas das atividades que havia
em Vila Verde com  pousadas, bares e restaurantes  para todos os tipos de gosto e bolso.
    Antes de chegar ao fim da rampa os olhos azuis muito claros do vaqueiro que ia vestido
de calça e camisa preta, seguiram o veículo vermelho que se aproximava do estacionamento
para os visitantes do navio atração.
    Sentiu o estômago gelar e o coração acelerar, mas ignorou a dor que o tomara
momentaneamente de assalto. Já estava acostumado a sentir aquilo sempre que via aquela
mulher. Todavia, não conseguiu se mexer por alguns instantes e só se deu conta disso
quando o casal, que trazia no colo um bebê, aproximou-se dele e o cumprimentou.
    - Oi, Oliver... - A mulher lhe deu um largo e amável sorriso.
    - Oi, Bia... - Ele respondeu  devolvendo o sorriso e tratando de esconder sua emoção
ao vê-la.
    - E aí, amigão? - O homem que a acompanhava o cumprimentou daquele jeito
característico dos homens que nem eram velhos e nem jovens mas que estavam na casa dos
trinta e poucos.
    - Oi, Adriano... E como vai esse meninão? - Oliver se dedicou a brincar com o
garotinho pensando, no fundo de seu coração que aquele menininho poderia ter sido seu. Mas
afastou o pensamento. Queria muito que Beatriz fosse feliz. Fora um tolo em deixá-la
partir quando ela ainda trabalhava para ele como uma das faxineiras de sua fábrica. O
orgulho o impedira de levar o relacionamento adiante, de apresentá-la a pequena sociedade
vila-verdense, pois era uma moça de ascendência afro-indígena além de não ter nenhuma
formação acadêmica.
    E pagara caro por isso. Ainda hoje, anos depois de tê-la perdido, ainda amargava a
saudade pelas noites e sentia sua falta durante os dias.
    Como se o seu orgulho não lhe bastasse, ainda nutrira por ela uma série de
preconceitos. Ela não tinha uma das melhores reputações de Vila Verde. Tivera uma
quantidade sem tamanho de namorados e sempre era vista com um tipo diferente a tira-colo.
    No início se envolvera com ela por causa mesmo de sua reputação. Bem... Tinha que
confessar que era uma garota muito bonita. Mas ao brincar com fogo saíra queimado. A
curiosidade o levara até ela e anos mais tarde, soubera que não fora o único homem covarde
de Vila Verde que se aproximara de Beatriz para se aproveitar de seus atrativos e acabara
apaixonado mas com medo de assumir um relacionamento com uma garota de reputação tão
duvidosa. 
    E agora ela estava ali. Realizara o seu sonho de amar e ser amada, de se casar com o
homem amado e esfregava, sem o saber, sua felicidade na cara de uma porção de marmanjos
covardes que nunca a levaram a sério.
    Oliver Mattos engoliu sua frustração e foi pegar seu carro no estacionamento.
    Ao chegar em casa, ainda aborrecido por ter visto Beatriz e sua família,
surpreendeu-se ao ver sua irmã, que ostentava uma barriguinha e seu marido, o agora bem
sucedido Pedro Rocha, o criador de cabras e ovelhas.
    Sorriu ao ver o casal.
    - Raíssa está mesmo determinada a correr nesta droga de prova dos três tambores. Por
acaso você tem algo a ver com isso, Oliver? - Evelyn Mattos Rocha parecia irritada ao
extremo.
    - Deixe a menina se divertir. Só tem dezessete anos. Logo vai para a faculdade e
outras prioridades virão. Deixe a menina brincar um pouquinho de cowgirl.
    - Essa tal corrida de barris é perigosa, Oliver!
    Oliver Mattos ia responder quando seu telefone tocou e, pedindo licença a irmã e ao
cunhado, foi até a mesinha ao lado para atender.
    - O que?
    Evelyn viu a expressão do irmão mudar. Logo em seguida o viu bater o telefone sem
dizer nada ao seu interlocutor e estranhou. Oliver era sempre muito controlado, frio
mesmo. Os olhos azuis do irmão, de uma tonalidade muito clara, mais pareciam duas pedras
de gelo. E era assim que todos o viam, exceto aqueles que tinham com ele uma relação mais
estreita, como a grande amizade que ele nutria por Guilherme Lobo e seu advogado Luís
Paulo, sua família e uns outros fazendeiros de quem era amigo mais por a confiar no caráter
deles do que por estreitos laços de amizade, como era o caso dos irmãos Sivelie, dos
Cassilhas e até mesmo dos Salviati, embora desse último ele mantivesse uma certa
distância. Era muito difícil vê-lo conversando com  Adriano Salviati embora todos soubessem
que gostava do modo como o fazendeiro fazia negócios.
    - O que houve, Oliver? - Perguntou preocupada.
    - Acabei de cometer uma indelicadeza... - Ele falou mais para si do que para a irmã.
    - Eu percebi. Bateu o telefone na cara de alguém...
    Oliver se ressentiu por sua atitude e se estivesse sozinho, ia poder descarregar sua
ira contra si mesmo destruindo algo. atirando longe algum objeto. Mas ficou firme. Nem
mesmo de atitudes como essas ele gostava. Detestava perder o controle, detestava qualquer
coisa que o tirasse do sério. E seu advogado acabara de fazer isso. Correção. Começara a
tirá-lo do sério e fora por isso que ele acabara tendo aquela abominável atitude infantil.
    Logo ele que se orgulhava tanto de ser diferente, de agir sempre de maneira calculada,
estudada, sem jamais perder a pose. Nas situações difíceis, sempre mantinha-se calmo e
sempre ouvia o que a pessoa tinha a dizer para só depois de racionalizar bastante, dava a
sua cautelosa opinião.
    Contudo, na maior parte das vezes, fervia de ira e frustração e se havia um assunto
que o fazia quase perder a calma era ouvir falar de seu pai, da mulher dele ou de qualquer
coisa relacionada aquele maldito casal.
    Respirou fundo a fim de voltar ao seu estado normal. Amaldiçoou o casual encontro com
Beatriz e Adriano Salviati, momentos antes. Certamente fora aquilo que o deixara irritado
a ponto de ser descortês com seu advogado.
    Era óbvio que ninguém sabia o que tinha por dentro pois sempre conseguia disfarçar sua
fúria interior por trás daquela aparência cordial de pura amabilidade. Mas sabia que nada
tinha de amável. Na verdade era um homem vingativo e rancoroso, que nunca esquecia um
desagrado. E podia esperar anos para se vingar de alguém que o tivesse prejudicado. Não
esperara pacientemente para se vingar de Soninha, a sua secretária que o fizera desconfiar
de Beatriz?
    Soninha escondera suas abotoaduras de ouro na bolsa de Beatriz e ele, desconfiado da
mulher a quem amava, acabou acreditando em sua secretária. E, por isso, perdera Bia. Mas
Soninha teve o que merecia! 
    E agora era aquele caso do seu pai que o deixava interiormente exasperado! Pensou em
ligar de volta para Luís Paulo e se desculpar pela grosseria, mas, se conhecesse bem o
amigo, ele não demoraria para aparecer em sua casa. Era questão de minutos e seu advogado
pelo tom de voz que empregara antes de pronunciar o nome de seu pai, deixava claro que o
assunto era mais que sério! O que a desgraçada da mulher de seu pai aprontara agora?
    - O que houve, Oliver? - Evelyn tornou a perguntar.
    - Era Luís Paulo.
    - Sei... E daí?
    - Falou que hoje, um oficial de justiça esteve aqui para me entregar uma intimação e
como não me encontrou nem em casa e nem na fábrica, deixou a intimação com meu advogado.
    Pedro Rocha, que se mantinha calado, ergueu as sobrancelhas.
    - É, meu amigo... - Oliver percebera o discreto movimento. - O caso deve ser bastante
sério.
    - Deve ser? - Evelyn perguntou.
    - Deve... Não viu que bati o telefone na cara do Luís Paulo?
    Evelyn sempre se encantava com a voz calma e pausada do irmão. Certa vez uma garota
lhe dissera que a voz de Oliver era a mesma que os homens empregavam quando estavam
excitados. Rouca, sensual, pausada, como se falasse ao pé do ouvido de uma mulher. Como se
quisesse convencê-la a levá-la para a cama. Mas  sua irmã, não percebia aquelas
nuances na voz do irmão embora a achasse tão agradável que a comparava com aqueles
dubladores de filmes românticos. E nunca, em hipótese alguma, ela jamais o vira elevar o
tom de voz. Todavia, quando o assunto era seu pai ou algo relacionado a ele, ela podia
sentir que algo a mais vibrava naquela voz de veludo. Seria um ódio quase incontido?
    - E?
    - Bem... O que cheguei a ouvir é que alguém está querendo o meu dinheiro ou... Ou algo assim.
E quem mais faria isso além daquele velho babão e daquela mulher desclassificada?
    - Não entendi... Está falando de nosso pai e da mulher dele?  Eles ainda  tem direito a alguma coisa?
Você não me disse, certa vez, que, pelo fato da fortuna ser de nossa mãe quando ele e ela
se casaram, tudo ficara para nós dois e que papai não tinha direito a nada?
    - Foi exatamente aí que eu não entendi. Luís Paulo falou algo sobre um menino, um
adolescente...
    - Nosso pai teve um filho com aquela mulher?
    - Parece que sim...
    - Mas o que Luís Paulo disse especificamente.
    - Não sei. Bati o telefone na cara dele.
    - Isso eu percebi... - Evelyn começava a ficar um tanto nervosa.
    - Calma, querida... - Pedro Rocha se pronunciou. - Espere o advogado chegar aqui e tudo
deverá ser esclarecido. Se bem conheço meu amigo Luís Paulo, ele já está a caminho.  Fique tranquila. Olha só como nosso bebê já está agitado!
    Oliver olhou ao cunhado e quase sorriu. Era muito engraçado ver Pedro Rocha, um quase
gigante alisando a barriga de sua irmã como se quisesse acalentar o bebê que estava lá
dentro.
    E em minutos, Luís Paulo entrava naquela agradável sala de estar, grande e espaçosa,
com seus grupos estofados bonitos de se ver e extremamente confortáveis e convidativos.
    Era óbvio a tensão do advogado. Ele, ao que parecia, tinha uma bomba bastante danosa
para detonar.
    Imediatamente, Pedro o cumprimentou, visto que eram amigos chegados desde a infância.
    Luís Paulo fez uma prece silenciosa em agradecimento aos céus por seu amigo estar ali.
O que tinha para dizer ia deixar Oliver Mattos muito aborrecido. O problema residia
justamente aí. Até onde ele ficaria aborrecido? Embora todos em Vila Verde admirassem
a calma, a tranquilidade do fazendeiro, no fundo de sua alma, Luís Paulo desconfiava que
aquela pose de bom moço, calmo e sereno era só uma fachada para esconder uma pessoa fria,
de sentimentos extremamente conturbados. Mas ele era somente seu advogado e não o seu
psicólogo. Fossem quais fossem os fantasmas de Oliver Mattos, preferia deixá-los
submersos onde estavam. Infelizmente, sabia que assim que começasse a relatar o que o
levara ali, alguns ou todos os fantasmas que Oliver Mattos fazia questão de esconder iam
saltar para fora. E quais seriam os resultados disso?
    Por isso, fora um presente divino encontrar seu amigo Pedro Rocha e sua esposa
grávida. A presença de Pedro deveria conter um pouco da lava incandescente que aquele
vulcão adormecido, certamente expeliria. E a irmã grávida, ia fazer com que Oliver
repensasse um pouco a ira que se formaria em seu íntimo. Ao menos, era isso que Luís Paulo
esperava. Não era culpado dos erros que seus clientes cometiam. Não queria ser o alvo da
fúria de um homem que escondia seus mais sombrios e tenebrosos sentimentos por trás de uma
máscara de impassividade. Sabia que aquele olhar sereno que Oliver dispensava a todos os
que se aproximavam dele era pura fachada e que ao menor sinal de contrariedade, ele tinha
reações baseadas numa atitude tão gelada que congelaria o inferno e um pouco mais.
    - Vamos ouvir o que você tem para me dizer, doutor. - Oliver escondia sua apreensão
por trás de uma máscara de sarcasmo. Mas percebia, pelo cintilar dos verdes olhos de Luís
Paulo que algo bastante danoso se aproximava de suas águas mansas. Só esperava ter sangue
frio o suficiente para se manter distante da fúria e de coisas que o deixariam mal. E
tentava, com um esforço sobre humano, se antecipar as más notícias e se preparar para
aceitá-las fossem elas o que fossem. - Meu amado pai e minha adorada madrasta querem o que dessa vez? A
pensão que eu lhes envio todo mês não está sendo o suficiente?
    Luís Paulo limpou a garganta.
    - É um pouquinho mais do que isso...
    - O que eles querem agora? - Disse ainda com sua voz calma e apaziguadora e Luís Paulo se
perguntou até onde ele conseguiria sustentar a melodiosidade daquela voz.
    - Oliver falou de um menino... -
    Evelyn interrompeu os pensamentos de Luís Paulo e de certa forma ele achou melhor ir
naquela direção.
    - Há um adolescente de treze anos agora envolvido nessa confusão...
    - Treze anos? Eu não sabia que papai tinha um outro  filho. Por que nunca nos disse
isso nesse tempo todo?? Não entendo porque escondeu um filho de nós.  Teve medo de que maltratássemos o garoto? É isso?
 Evelyn calou-se. Não ia botar lenha na fogueira pois sabia que se
começasse a falar de Arabela seu irmão ia ficar deprimido. Ele não conseguia esquecer que,
anos antes, Arabela, uma empregada recém contratada, fora pega em seu quarto, dormindo com o pai deles, pela própria esposa, sua mãe. E Oliver nunca conseguira superar aquilo embora o
casamento de seus pais, há muito estava deteriorado. Ela, pelo menos, fora embora de
casa muito cedo. Fora morar com uma tia na Espanha. E por lá ficara, se casara, tivera sua
filha Raíssa e mais tarde, acolhera sua mãe debilitada pela humilhação de perder seu
marido para uma empregada semi analfabeta, com uma filha adolescente e ambas com a
reputação duvidosa.
    Por sorte ou por covardia, Evelyn saíra da casa dos pais antes que essa bomba
estourasse. Muito antes até que Arabela entrasse em suas vidas e rompesse de vez com
aquele casamento caótico! Já lhe havia sido difícil crescer em meio a tantas brigas e acusações de
ambos os lados.
    A mãe gritava aos quatro cantos da casa que Alexandre não sabia ser homem, que não
honrava as calças que usava. Que a roubara pois, ao se casarem, era ela quem tinha as
terras e o dinheiro que ele fazia questão de gastar com as prostitutas.
    Seu pai, por outro lado, dizia que não tinha uma mulher, que ela nem permitia que ele
a tocasse, que ela não se preocupava com ele, que ela o evitava na cama, que as mulheres
da rua o valorizavam como homem e por aí afora...
    Era um caos viver debaixo daquele teto com tantas acusações de ambos os lados e quando
nenhum dos dois davam o braço a torcer. Ambos queriam ter a última palavra e ambos lutavam
com unhas e dentes para por o outro para baixo.
    Evelyn não tinha raiva do pai. ao contrário, entendia o que ele sentia e seu irmão a
acusava de ficar do lado dele fingindo não ver o sofrimento que aquele homem causava a sua
mãe.
    Mas Evelyn via sua mãe como uma mulher inflexível que não cedia nem um milímetro em
suas decisões. Bastava ouvi-la reclamar de tudo e de todos para saber que sua mãe não era
a santa que tentava parecer. Se o seu pai procurava mulheres na rua, era por que não tinha
nenhum tipo de satisfação em casa. E não era só relacionada ao sexo. Era em todos os
sentidos. que homem, por mais apaixonado que estivesse, ia querer viver com uma mulher que
reclamava o tempo todo sobre tudo e que enchia seu armário de roupas que nunca usaria e a casa de quinquilharias sem a menor importância? Além disso, sua mãe fazia questão de deixar claro ao
marido o quanto ele era insignificante, ignorante, débil, um nada!

    Entretanto,  Oliver não via as coisas desse modo. Para ele o pai estava errado e se a mãe o
desprezava estava mais do que certa. E se ela gastava todo aquele dinheiro era por que
sabia que isso exasperava o velho e se ela o rejeitava na cama era por que seu pai queria
que ela se abrisse para ele como as prostitutas faziam, sem um pingo de pudor e de
vergonha. Afinal, uma esposa deveria ser respeitada pelo marido e ele não deveria jamais
querer fazer com sua esposa as mesmas safadezas que fazia com sua amante.
    Por sorte, Evelyn não convivera com toda aquela confusão. Tinha que encontrar um rumo
para sua vida embora só o tivesse encontrado há pouco tempo, menos de oito meses atrás,
quando seu coração enfim sossegara ao conhecer Pedro Rocha!
    E quando a bomba estourou, Evelyn já estava divorciada de seu marido, o primeiro de uma
longa lista que se seguiu a esse. E com uma filha a qual não queria cuidar, alegando que
não levava jeito para aquilo.
    Assim, quando sua mãe correu para ela, mesmo acreditando que seu pai não era o vilão
daquela história, aceitou a ajuda de Dalilh  de bom grado pois já estava farta de deixar
sua filha entregues as babás que se sucediam umas as outras como sua lista de marido até
que sossegara ao se casar com Pedro Rocha.
    - Bem... - Luís Paulo começou outra vez. - Seu pai e Arabela  nada tem a ver com isso! É um
outro assunto!
    Demorou um pouco para compreenderem sobre o que o advogado falava. Não era seu pai e  Arabela que
queriam o dinheiro? Então, quem era?
    - Está falando sobre o que, doutor? - Perguntou com mais sarcasmo ainda ao enfatizar
a palavra doutor, visto que nunca tratava assim o seu advogado.
    E um silêncio repentino caiu sobre eles. Era claro que Luís Paulo media as palavras
com um esmero irritante.
    - Se não é meu pai e nem Arabela quem entrou em contato com a justiça para que me enviassem uma
intimação?
    "Era aí que morava o perigo!" Luís Paulo encheu o peito de ar e se preparou mas foi
novamente cortado em sua linha de pensamento.
    - Entendi... O adolescente... - Oliver tinha o tom de voz ainda mais baixo o que
demonstrava que se esforçava além da conta para não explodir. - Passou por cima dos pais e
quer uma pensão para si pois pensa que o pai é rico! Mas como conseguiu fazer com que um
advogado entrasse com um pedido de partilha dos bens nessa proporção? Só um sujeitinho
muito baixo apoiaria um moleque de... De... Quantos anos mesmo tem o moleque?
    Luís Paulo achou que Oliver deveria estar mesmo um tanto desnorteado pois não era de
concluir as coisas antes que seu interlocutor terminasse uma explanação. Estava perdendo o
controle? Ia gostar de ver aquilo!
    - Treze... - Falou Evelyn.
    - É mais ou menos por aí... - O advogado ainda caminhava cauteloso por aquele assunto,
em parte por receio e em parte por que maldosamente desfrutava ao ver Oliver ser dirigido
por ele. Não que não gostasse do fazendeiro. Eram amigos. Mas era gratificante vê-lo quase
tirar a máscara de bom moço. Mas apostava com seus botões sobre até onde o homem iria.
Segundo o que sabia sobre ele, sobre seu autocontrole, Oliver não desabaria com
facilidade. E, embora soubesse que estava sendo um tanto cruel, gostava de ter seu chefe
um pouquinho em suas mãos. Prova de que não era tão indestrutível assim!
    - Meu suposto irmão... Quer meu dinheiro? Vai sonhando!
    Luís Paulo desviou o olhar. Aquele suspense já estava indo longe demais. Não ia
continuar a alimentar o ódio de Oliver com aquela indefinição.
    - Há algum teste de paternidade que prova que esse menino é meu irmão? aquela
vagabunda não traiu o velho e arranjou um filho só para tirar mais dinheiro dele ou de
mim?
    - De fato, o que estão pedindo vai deixá-lo um tanto aborrecido.
    - Será? - Duvidou Oliver. O que o idiota do advogado desse maldito garoto quer? Certamente é um
dos amantes daquela vadia desclassificada e quer viver no bem bom as custas de meu
dinheiro! Somente um advogado sem escrúpulo algum ia dar ouvidos a um adolescente
ganancioso!  Mas vamos lá. Sou capaz de pagar o que eles quiserem para me ver livre de um
irmão indesejado.
    Luís Paulo ponderou por qual caminho deveria seguir. Dizer o que eles queriam logo de
cara e exasperar de vez aquele homem ou explicar o por que do pedido. Optou por deixar
Oliver exasperado de vez. O que se seguisse depois ia deixá-lo ainda mais furioso embora
não soubesse mesmo qual dos dois caminhos ia detonar a ira daquele homem tão tranquilo e
de fala tão mansa!
    - Bem... Estão pedindo a metade de seus bens! A metade de tudo o que você possui.
    Por um minuto inteiro, Oliver Mattos parecia uma estátua loura de mármore. Não movia um
músculo sequer. Evelyn deu um gritinho de susto e Pedro Rocha disse um palavrão. E Luís
Paulo aguardou o que viria.
    - A metade do que eu tenho? Tudo o que construí por meu próprio esforço? Aquele velho
desgraçado não tem nada a ver com a fortuna que eu quintupliquei. Enquanto ele só fez
gastar o dinheiro que ganhou com o casamento com minha mãe, eu reergui essa fazenda, eu
construí a administrei a fábrica de frios e laticínios... Ele nunca me ajudou em nada. Só
pensava em gastar dinheiro com a mulherada!
    - Você expulsou nosso pai de casa, Oliver...
    - E tinha mesmo que expulsar. quando ele começou a se envolver com aquela maldita ,
fui eu quem abriu mão da faculdade, de tudo o que eu planejara para minha vida e fiquei aqui trabalhando
feito um burro de carga. Você deu o fora, foi esbanjar o dinheiro da família pela Europa.
Fui eu quem ficou aqui e vi o que aquele canalha fez com a minha mãe. Fui eu quem vi,
junto com a minha devastada mãe, aquele velho imundo em cima daquela vadia!
    Luís Paulo admirou-se ao ouvir tanta raiva contida por trás de uma voz baixa, pausada
e ainda assim, com toda aquela raiva, tinha a voz aveludada como se estivesse falando de amor com a
mulher amada. Tinha que reconhecer que aquele homem possuía um autocontrole além da conta!
Como ele conseguia aquilo? Que ser humano conseguiria proferir tantos impropérios e manter
a aparência calma e tranquila daquele modo. Era realmente alguém a quem se devia temer.
Não alardeava sua fúria, o que devia ser extremamente perigoso. Seria ele o tal tipo de
pessoa que matava sorrindo?
    - Bem... - Luís Paulo limpou a garganta. - Na verdade, o rapaz não é seu irmão, Oliver.
    - Não?
    - Não. É seu filho!
    - Que brincadeira de mau gosto é essa, Luís Paulo? - A voz baixara dois tons e parecia
ainda mais perigosa.
    - Não é nenhuma brincadeira. Vai poder pedir um exame de DNA para que possa se sentir
mais confortável.
    Oliver ameaçou levantar-se do sofá onde estava até então aparentemente confortável,
mas tornou a sentar-se. Em seguida, levantou-se, foi até uma das portas de vidro que se
abria para a piscina e tornou a olhar para o grupo que esperava que ele dissesse alguma
coisa. Ele então foi de um lado ao outro da sala e tornou a se sentar. Levantou-se outra
vez, foi ao bar, encheu um copo com uma dose tripla de uísque, bebeu quase que de uma só
vez e perguntou com a voz serena como se estivesse se declarando a Júlia Roberts.
    - Um filho? Um filho meu? Meu e de quem?
    - De Cecília, a filha de Arabela. Ela está pedindo o divórcio e quer a metade de seus
bens. alega que você nunca lhe pagou uma pensão nem a ela e nem ao menino. E que os
ignorou por todo esse tempo. E agora, tantos
anos mais tarde, ela reencontrou o amor e quer refazer sua vida. Mas ainda continua casada
com você!
    Luís Paulo viu como ele apertava as mandíbula. Trincava tanto os dentes que parecia
que racharia o rosto, tão grande era o esforço que fazia para se conter. A ira fora tão
grande que o copo que estava em suas mãos se quebrou e logo o sangue começou a escorrer
por entre seus dedos. Mas ele parecia nem notar. Inclusive quando Evelyn lhe tomou a mão e
começou a lhe fazer um curativo, ele parecia não perceber o que estava lhe acontecendo e
Luís Paulo compreendeu que ele fora buscar alguma explicação no passado. Estava tão
absorto em suas recordações que parecia alheio ao que ocorria ao redor de si. Embora a
a tal Cecília  não fosse sua cliente, Luís Paulo  temeu pela
segurança dela e do rapaz. Era claro que Oliver não aceitaria de boca calada aquela
desfeita. Vira-o destruir um desafeto por muito menos.  Não invejava a pele daqueles dois.
Era certo que a moça não sabia com quem estava lidando. Se o soubesse, não iria atiçar
aquela fúria contida. E ia pagar caro por querer bater de frente com ele, por
encostar aquele lobo com pele de cordeiro na parede!
    Teria ele coragem de prejudicar o próprio filho?
    - Me explique isso! - Oliver pediu mas lentamente começou a se lembrar de algo que
ele há muito não dedicava nem um milésimo de segundo de seu tempo para relembrar. Desde o
momento em que expulsara o pai, a mulher ladra de maridos e sua detestável filha de sua
casa que não se lembrava da garota. Era certo que se deitara com ela. queria danificar
alguma coisa que o pai parecia prezar. Chegara mesmo a pensar em conquistar a mulher dele,
de se deitar com ela, de humilhar seu pai mostrando que a vagabunda se deitaria com
qualquer um, mas o asco que sentia pela mulher o impediu de ir tão longe! Mas havia aquela
bonequinha gorducha de dezesseis anos. Achara que ela era tão vadia quanto a mãe, mas
seria mais fácil de digerir. Então, aproximou-se da menina, cheio de galanteios e de
mentiras a fim de conquistá-la.
    - Mas você odeia minha mãe. - A boboca dissera ainda na dúvida.
    - Não gosto de sua mãe mas apaixonei-me por você... E não posso mais ficar distante.
- Fingira sofrimento e dor. - Penso em você todos os minutos de minha vida. Estou a ponto de enlouquecer de tanto amor,
de tanta paixão, de tanta vontade de que você seja minha. Meu amor por você é tão imenso
que eu sou capaz de perdoar sua mãe e aceitar o romance dela com meu pai.
    E a bobinha acabou acreditando nele. Assim, um dia, depois de tanto tentar transar com
ela, conseguiu enredá-la. Ficara um pouco consternado ao saber que ela era virgem, mas
empurrou suas preocupações para longe e, na noite em que se deitou com ela,
arranjou para que não só seu pai o pegasse, mas cometeu o erro de que outros também o
visse com ela.
    E seu pai fizera algo terrível contra ele, contra o próprio filho! O obrigara a se casar com
a filha daquela mulher desclassificada! Só porque ele a deflorara! Só por que o fizera e
tivera o prazer de demonstrar o quanto ela era fácil diante de várias testemunhas! Só por que fizera questão
de envergonhá-la, de humilhá-la diante de uma porção de pessoas! Mas não era aquilo mesmo
que ele queria? Deixar a mãe daquela garota sem chão? Casou-se! Tivera que fazê-lo. Mas
aquela desfeita de seu pai se somara a muitas outras que ele guardava através dos anos. E
se casara com a bruxinha! E ele ainda nem havia completado dezoito anos!
    Obedeceu ao pai. Mas nunca se deitou com ela outra vez.
    - Disse que me amava. - ela choramingara.
    - Menti. Só queria saber se você era tão boa... Atriz quanto sua mãe. Não é. Sua mãe
conseguiu prender meu pai. Por você não sinto nada além de nojo!
    E, pouco tempo depois Oliver conseguiu expulsar o pai e sua nova família de suas terras.
Prometera pagar ao pai uma porcentagem dos lucros da fazenda e seu pai achou melhor viver
longe daquele filho rancoroso e vingativo antes que ele lhe destruísse o pouco de vida que
lhe restava, agora que se sentia feliz, agora que conhecera alguém que o compreendia e que
o apoiava. Não podia deixar sua nova família exposta ao ódio daquele rapaz de aparência
tão branda mais que era capaz das piores atrocidades quando contrariado.
    E Oliver nunca mais ouvira falar de nenhum deles, apenas repassava, através de seus
advogados, a parte que era devida ao seu pai!
    E agora, aquilo!





                            Cowboys do Vale 9 - Entre o amor e a vingança

Anjos, Esperança e Gratidão 2 - Um Voo Nas Asas Da Gratidão

        Muitas vezes, a vida ataca de forma tão feroz que uma pessoa se sente perdida em meio a tanta desolação e destruição. Por mais...