sexta-feira, 22 de julho de 2011

Série De quem é esse bebê 3 - Amor e Arrogância

Josh Holloway, o Sawyer de Lost, 9
 Seu filho queria muito que ela fizesse daquele homem mal educado, o seu pai. Entretanto, ela já amara uma vez e jurara a si mesma nunca mais apaixonar-se de novo. O amor trouxera muita dor ao seu coração. Então, como teria coragem de se entregar novamente à paixão, ainda mais quando o homem por quem seu coração batia mais forte  vivia de mal com o mundo e, para piorar, adorava colocar a própria vida em risco? E, como se nada disso bastasse, ele achava que ela era uma garota de programa!  E não perdia qualquer oportunidade de deixar isso bem claro para ela!


 capitulo 1

            Michelângelo Montenegro sentia que os nervos de seu corpo ameaçavam  pular para fora. A raiva o engolia, a ira teimava em saltar, a irritação queria uma brecha para se libertar. Com muito custo, tentava apaziguar a fúria cega que o tomava. Respirou fundo várias vezes. Não ia causar uma confusão num local público. Tinha que se controlar. Tinha que acalmar-se e pensar num modo de fazer com que os dois pagassem por aquela injúria. Precisava aprender a calar sua cólera. Infelizmente, seu temperamento não era um dos mais mansos ou agradáveis para se conviver. Seu desejo era pular na garganta daquele homem e colocar-lhe dez metros de lingua para fora. Mas tinha que conter-se.  Como seu cunhado tinha coragem de desfilar com a amante naquele restaurante tão perto dos escritórios da empresa?
Reese Westherpoon

            "Que cara de pau!" E reprimiu, com muito custo, o desejo de ir até onde o cunhado estava sentado com a amante e lhe desferir uns bons sopapos. E o que faria com a vadia que o acompanhava? Era uma desavergonhada! Devia ter menos da metade da idade de Francisco, o seu cunhado safado e traidor! Com toda a certeza, era uma dessas garotas novinhas e aproveitadoras, que usavam os cororas para se dar bem! E, enquanto isso, sua irmã se esvaía em lágrimas por causa daquele miserável que não a merecia!

            Já não era a primeira vez que o encontrava na companhia daquela vagabunda. Aquilo era provocação. Não ia permitir que Francisco Tavares humilhasse sua irmã daquela forma. Aquilo era algo inaceitável. Helena, sua irmã, não merecia aquele tipo de tratamento.  Era uma mulher bondosa demais, dedicada aos três filhos do casal. Filhos! E aquela piranha que, de um momento para o outro aparecia quase sempre pendurada em seu cunhado, tinha idade para ser filha dele!

            "Safado! Maldito! Filho da puta!"   

            Ia tomar providências para afastar aquela mulher da vida do cunhado e garantir, dessa forma, que o casamento de sua irmã não fosse abalado por uma pistoleira como aquela.

            E isso saltava aos olhos. A loura era escultural. Estava na cara que queria dar o golpe no idiota do velho babão.

            Tudo bem que Francisco Tavares não era velho. Era até mesmo um homem vistoso, atlético, com cinquenta e três anos. Muitos artistas de Hollywood, com aquela idade, estavam no auge da carreira e fazendo com que muitas mulheres, pelo mundo afora, sonhassem acordadas com eles.

            Mas a pistoleira que o acompanhava era quase da idade de sua sobrinha mais velha. Quantos anos Petra tinha agora? Ah, sim... vinte e quatro... E aquela mulher que acompanhava o seu cunhado deveria ter essa mesma idade.

            Escondeu-se por trás do cardápio quando o casal passou por ele enquanto saíam do recinto.

            Michel admirou o charme com que a loura balançava os quadris. Era um deslunre só e consternado, percebeu que a maioria dos homens ali presentes comiam a loura com os olhos em vez de comerem suas refeições.

            Tinha que elaborar um plano para separar aqueles dois e já tinha algumas ideias rascunhadas em sua cabeça.

            Iria partir para o ataque. Ia seduzir aquelazinha e, quando ela estivesse no papo, ia mostrar ao cunhado quem era a pistoleira.

            Uma dúvida o alcançou como um raio. Ela cairia na sua cantada? E por que não? Se a piriguete estava atrás de um endinheirado, ele não encontraria muitas dificuldades em conquistar a garota. Era mais rico que Francisco. Aliás, o cunhado era seu empregado. E era mais jovem... Tinha trinta e seis anos. Isso era mais uma vantagem sobre os cinquenta e três de Francisco. E, obviamente, era mais charmoso, mais bonito, mais atraente aos olhos de uma mulher.

            Hã, hã! Limpou a garganta ao perceber que a modéstia não era um de seus atributos. Mas não podia entrar numa guerra achando que a batalha já estava perdida. Era, e não podia esquecer, um bom candidato a roubar o coração daquela loura de fechar o comércio. Tinha que elevar suas qualidades, seus atributos e entrar naquele jogo com a cabeça erguida, certo da vitória, certo da conquista.

            Não que fosse uma pessoa convencida, vaidosa... Não sabia se era assim. Volta e meia diziam que ele era um poço de mau humor, coisa com a qual ele discordava sem nem ao menos pestanejar. Não era mal humorado. Só não tinha paciência para suportar pessoas aborrecidas.

            Mas algo ele sabia sobre si mesmo. Jamais abandonava o campo de batalha e, uma vez iniciada uma disputa, dizia a si mesmo que o melhor venceria. E o melhor era ele, claro!

            Assim, o seu jogo de sedução só tinha um resultado. Aquela garota ficaria caidinha por ele, abandonaria seu cunhado e sua irmã poderia viver em paz em seu casamento com aquele traidor de uma figa!

            E se o bastardo do Francisco já tivesse mostrado alguma foto sua para aquela pistoleira? Afinal, volta e meia, ele, Luciano ou Arnaldo eram entrevistados por aquelas revistas que falavam de empresários que se deram bem. Obviamente, ele não era famoso, mas a talzinha já poderia ter visto sua foto em algum lugar. Não fora assim que Carolina aparecera na casa de Arnaldo com um bebê?

            Carolina encontrara Arnaldo Glier, o pai de seu filho, através das fotos em uma revista, não?

            O que ele diria para a loura se ela o reconhecesse como cunhado de seu amante?

            "Humm!" Fingiria que o encontro entre ambos fora casual, que fora coisa do destino. Qualquer um podia esbarrar numa garota num shopping, num  estacionamento, numa fila de cinema... Mas teria que ser um encontro certeiro. Ela não poderia sair pela tangente. Dois encontros casuais numa cidade como o Rio de Janeiro já seria forçação de barra! Precisava encontrar um centro de interesse entre os dois. E isso não seria difícil. Podia pedir a Jair, o tio de Luciano ou para Nogueira, o motorista de Arnaldo. Tanto um quanto o outro pareciam ter uma rede de informação capaz de fazer a internet parecer algo da Idade Média!

            Tinha mesmo que ajudar sua irmã. A coitadinha perdera a mãe há tão pouco tempo...

            Helena era doze anos mais velha que ele e ambos eram filhos de mães diferentes. E essa fora a sorte de Helena. Ao menos fora o ponto positivo para que ela se aventurasse em um casamento, fato que jamais ocorreria com ele. Jamais se casaria e jamais se comprometeria num envolvimento romântico. Corria de medo dessas situações complicadas e nem acreditava em coisas como amor e paixão.

            tudo bem que durante a maior parte da adolescência e da vida adulta, ele e seus dois amigos comungavam da mesma linha de raciocínio. Contudo, ambos estavam agora amarrados, casados, presos naquele negócio que se chamava matrimônio.

            Uma coisa com um nome tão feio não podia ser algo bom. Achava que a palavra "MATRIMÔNIO" era meio parecida com o nome de algum elemento químico que só poderia servir para aniquilar a humanidade.

            Com o que ele poderia rimar a palavra matrimónio? Com antimônio, pandemônio, neurônio, ozônio, demônio e, com um pouquinho de boa vontade, com  manicômio?

            E o que vira enquanto crescia fora o suficiente para deixá-lo imune contra aquele veneno. Seu pai casara-se umas trinta vezes e sua mãe não ficava atrás.

            Para dizer a verdade, casamento não seria o termo correto para se aplicar aquele vai e vem de cônjuges tanto no lar materno quanto no paterno.

            Seu pais se desculpavam dizendo que amavam demais. Com Personalidades tão parecidas ele nunca soube por que a união de ambos não dera certo.

            A mãe de Helena fora a primeira esposa de seu pai. Mal sua irmã nascera e seu pai já estava de malas prontas para se aventurar em outra cama conjugal.

            Por sorte de Helena, sua mãe encontrara um companheiro, casara-se com ele e ficara casada com o mesmo homem até o dia de sua morte. Por isso sua irmã tivera coragem de se envolver num relacionamento tão sério com Francisco Tavares que acabou colocando uma aliança no dedo.

            Ele não. Por muitas vezes entrara em casa e descobria que havia ali um estranho. Seria um ladrão? Não! Claro que não! Era o mais novo namorado de mamãe que se mudara para sua casa de mala e cuia após se conhecerem num barzinho onde dançaram algumas músicas, transarem num motel da Barra e descobrirem que haviam sido feitos um para o outro. E isso durava uns dois, três meses.

            Um belo dia, ele entrava pela casa e tinha que se desviar dos objetos voadores não identificados, aumentar o volume do seu fone de ouvido para que não ficasse sabendo das imoralidades que sua mãe, segundo seus amantes magoados, era capaz de fazer. Não o respeitavam. Nem quando criança, nem quando era adolescente.

            Os supostos maridos que sua mãe teimava em arranjar, pareciam cópias exatas um do outro, ao menos no que dizia respeito ao prazer de gritar a plenos pulmões, para que toda vizinhança ouvisse, as peripécias sexuais da mulher que os acolhera, levara-os para sua casa e os apresentava a todos como o seu mais novo marido.

            Até que um dia ele chegava em casa e a paz reinante era um bálsamo. Infelizmente, tal oásis de paz durava pouquíssimo tempo. no máximo, dois dias.

         Aí, sua mãe e as amigas saíam para beber e dançar. E, certamente, naquela noite, ele ganharia mais um padrasto.  

            Foram tantos que ele nem chegava a gravar o nome da maioria deles.

            Para seu azar, por parte de mãe, fora o filho único. Sua mãe não tinha tempo para perder com uma criança. Durante o dia, ela precisava fazer compras para sair a noite. Sempre precisava de uma roupa nova, de um sapato, pois em hipótese algum poderia repetir qualquer item. E também precisava ir ao salão, cuidar da pele, das unhas, dos cabelos, da dieta, da ioga, da musculação, das aulas de dança...

            A única época de sua vida em que sua mãe parecia esquecer-se de arranjar um homem para morar em sua casa era quando encontrava uma ruga imaginária. Aí seus pensamentos estavam voltados para o botox, o silicone, o restilene e, nessas ocasiões, um homem, seu mais puro objeto de desejo, ficava um pouco esquecido, perdido em alucinados rompantes de ira por que acreditava que estava envelhecendo.

            Então, ele ia visitar seu pai.

            Seu pai era um pouco mais confiante. ao menos era o que ele sempre acreditara até o dia que, de porre, seu pai lhe dissera que tomava Viagra e que, volta e meia, fazia uma lipo escultura.

            Ora essa! Nem saberia dizer por que ficara tão chocado. Afinal, seu pai e sua mãe eram almas gêmeas, farinha do mesmo saco. Por que sua mãe, tão auto centrada, tão obcecada pela própria imagem, tão viciada em cirurgia plástica, tão preocupada consigo mesma ia ser diferente de seu pai?

            E assim, como acontecia na casa de dona Ivone Raquel, a casa de Carlos Magno também vivia rodeada de belas mulheres. A única diferença era que a maioria das mulheres de seu pai não queriam aquele tipo de relacionamento que sua mãe tanto ansiava. Elas queriam um otário que as sustentassem mas que as deixassem curtir a vida em total liberdade.

            Mas sempre tinha uma bobinha que acabavam engravidando e largando o filho nos braços de seu pai quando percebiam que não iam ganhahr muito com aquilo. Enquanto o interesse de seu pai por uma mulher era intenso, ele a cobria de joias, flores e passeios em seu luxuoso iate. Quando o interesse decrescia, ele descartava a talzinha como um lenço de papel. Não queria ver a mulher nem pintada de ouro. Então, aparecia um bebê.

            O velho, esperto como ele só, saía pela tangente. Colocava seus advogados em ação e a mulher acabava dando-lhe o filho e desaparecendo no mundo. Isso, quando o filho era realmente dele.

            Dessa forma, Michel Montenegro tinha seis outros irmãos, todos mais novos que ele.

            De certa forma, dera sorte. sua mãe era uma dama do high society e pode bater de frente com seu pai na hora de exigir uma vultosa pensão. Além disso, haviam sido casados. Ele, mais que qualquer outro de seus irmãos, tinha mais direitos a tudo o que era de seu pai.

            E ele era o fruto dessa loucura toda. Ia acreditar em amor eterno? Nem morto! Entretanto, agora tinha uma dúvidazinha que lhe rondava a mente. A louraça que vira com seu cunhado era de que tipo? Daquelas que só queriam tirar dinheiro do camarada ou daquelas que arranjavam um filho na vã tentativa de prender o otário?

            Não demorou uma semana para saber em qual categoria a vadia se enquadrava. Ela tinha um filho. Um garotinho de uns cinco ou seis anos de idade. Só lhe restava agora descobrir se o moleque era filho de seu cunhado.

            E se fosse? Como ele resolveria aquele pepino? Por aquela ele não esperava. Mulheres com filhos era uma complicação.  Mesmo que ela fosse idêntica a sua mãe, cujo filho não passava de um objeto decorativo, alguém para apresentar as amigas, era uma mãe, não?

            Só de lembrar disso sentia-se enjoado. Durante a infância, achara normal que a babá o buscasse para que ele entrasse na sala onde a mãe estava para cumprimentar as dondocas que tomavam chá naquelas finas porcelanas, no bule de prata. Ansiava por aqueles momentos em que a mãe, toda carinhosa, falava para as amigas sobre as gracinhas que ele aprontava.

            Todavia, na adolescência, aquela demonstração de afeto de mãe o enojava. Sentia-se como um bichinho dentro de uma jaula enquanto sua mãe falava das notas altas que ele tirara no teste de Física ou coisa semelhante.

            E, até agora, quando era um homem feito, dono de uma empresa que ele construíra sem o dinheiro dos pais, sua mãe ainda fazia questão de apontar o quão bem sucedido ele era.

            As mães não cresciam nunca?

            Raphaela Fernandes deu a mão para Cassinho e o conduziu de volta ao apartamento onde moravam. Passara grande parte da tarde brincando com ele na pracinha em frente ao prédio onde morava.

            - Viu, mamãe? O pai do Jeferson estava jogando bola com ele. Você viu?

            - Vi sim, filho.                                         

            - Por que eu não posso ter um pai para jogar bola comigo?

            - Já conversamos sobre isso, Cassinho. - A mãe sabia que o menino de cinco anos era muito jovem para entender o que acontecera com o pai embora ela sempre tentasse explicar da melhor forma possível para o entendimento dele. Ao menos, era no que acreditava. Mas, ao que parecia, suas explicações não encontravam abrigo nos ouvidos do menino. Ele nunca entendia por que o pai não estava com eles.

            - O pai do Jeferson sempre leva ele no Maracanã para ver o Vasco jogar.

            - O que acha se eu levar você?

            - Ah, mamãe... Não é a mesma coisa. Isso é diversão de homens.

            A mãe sorriu.

            - Quer dizer então que as mulheres não podem gostar de futebol?

            O garoto pareceu refletir na pergunta da mãe.

            - As mulheres podem gostar de futebol e ir ao estádio... Mas homens vão com homens. Os pais levam os filhos e as mães levam as filhas.

            - Humm... Isso não me parece muito certo. E se o pai quiser levar a mãe e as filhas também?

            O menino pensou mais um pouco.

            - Tudo bem, mãe... O pai pode levar todo mundo... - E mudou bruscamente de assunto. -   Você vai ter que voltar para o trabalho agora?

            - Não, meu bem... A mamãe agora é só sua.

            - E a noite também? Vai jantar comigo?

            - Não, meu bem... - Raphaela sentiu-se culpada. - Tenho um jantar de negócios.. Mas a vovó vai estar lá para cuidar de você.

            O menino parecia resignado.

            - O que foi? Não gosta de ficar com a vovó?

             - Claro que gosto, mãe... Mas gosto mais de ficar com você.

            Michel estava num restaurante da Barra da Tijuca junto com seus amigos e suas respectivas esposas. As vezes, conseguiam convencê-lo a sair de casa e se juntar aos demais mortais. Embora sua fama de recluso e mal humorado fosse bem conhecida, ele sempre abria uma exceção para seus amigos. E era só. Bem... Existia aquelas noites em que ele saía a caça. Mas já tinha as suas amiguinhas certas. Não era de se arriscar a perder tempo cantando uma mulher metida a difícil. Dessa forma, tinha uma ou duas amiguinhas de fé.

            - Como vai sua obra de caridade? - Perguntou a Carolina. Ela, que vivera dias difíceis catando material reciclável pelas ruas do Rio de Janeiro junto com um bando de outros velhinhos, conseguira iniciar uma cooperativa para os idoso abandonados, onde eles faziam artesanatos de todos os tipo para vender no exterior.

            - Está uma verdadeira maravilha! Como você deve saber, eles não querem caridade,, têm seu orgulho. E o trabalho que fazem eleva em muito sua auto estima.

            - E Arnaldo agora compreende o que você faz?

            - Sabe como é, né? O preconceito é algo enraizado demais para desaparecer num estalar de dedos. Mas estamos caminhando para dias melhores... - Ela riu.

            Michel admirava aquele casal de amigos e sorriu consigo mesmo. Arnaldo era, até encontrar Carolina, um rapaz muito cheio de preconceitos. Não gostava de se misturar com a classe operária, com suas funcionárias, embora tenha sido criado por sua babá que, mais tarde, acabara se tornando a governanta de sua casa. Por isso, fora com surpresa que ele e Luciano ficaram sabendo que Arnaldo se apaixonara pela babá de seu filho. E que, a tal babá era a mãe do menino. E que o menino, na verdade, nem era seu filho e sim de seu irmão.

            - Você deu uma olhadinha naquele contrato que lhe enviei hoje a tarde? - Michel perguntou a Luciano.                                            

            - Nada disso! - Carolina e Yara protestaram em uníssono.

            - Não viemos aqui para que vocês conversassem sobre negócios! - Carolina protestou.

            - Exato!  Não queremos ouvir nada sobre juros, contratos, implantações de novos projetos...

            - Isso mesmo... Se for para falar de negócio vou começar a falar sobre alguns processos que dei entrada esta semana...

            - Acho que vocês duas já deixaram tudo bem claro, não? - Luciano ria satisfeito enquanto dava um selinho em sua mulher. E virando-se para Michel. - Ordens são ordens!

            - Humm... Isso é muito bom... - A bela Yara ronronou.

            Arnaldo imitou o gesto com sua esposa.

            - Também acho... - Carolina tinha os olhos repletos de amor ao fitar o marido.

            Michel sentiu-se um pouco deslocado. Sempre que estava com aqueles dois casais, sentia na alma uma espécie de congelamento. Já não era a mesma coisa de antes quando os três saíam para zoar pela cidade.

            Michel era meio caladão, um pouco antiquado, com ideias um tanto arcaicas com relação a posição de uma mulher na sociedade.

            Costumava criticar mulheres que trabalhavam fora, que tinham uma carreira como objetivo.

            Quando Luciano Schineider se casou com Yara Vam der Vaart, não conseguia atinar como o amigo permitira que sua esposa, que já tinha um filho, continuasse a trabalhar fora.

            Eram as suas opiniões radicais, das quais não abria mão, não cedia sequer um milímetro que lhe dera aquela má fama de mal humorado e taciturno.

            Quando tinha que entrevistar uma mulher para o trabalho, fazia-o com má vontade e, por mais de uma vez fora processado por demonstrar sua posição machista diante de uma candidata a um cargo executivo.

            Em algumas situações, até mesmo seus amigos evitavam seus pontos de vista a fim de não iniciarem uma discussão onde todos se mostrariam inflexíveis e jamais chegariam a ponto algum.

            Mas amava os amigos como se fossem seus verdadeiros irmãos, já que ele não se interessava pelos outros irmãos que tinha, com exceção de Helena.

            Mas ver seus amigos felizes o incomodava um pouco, embora fosse contra casamentos e coisas do gênero! Mas estava preocupado com sua própria história.  Não tinha nada de si para contar. Todavia, naquele momento, além de ter uma grande quantidade de contratos na cabeça, tinha também aquela resolução que tomara na semana anterior de salvar o casamento da irmã. Nada mais!

            Ainda não conseguira se conformar com o que Francisco, seu cunhado, vinha fazendo. O safado tinha uma amante, uma loura do tipo coelhinha da Playboy, uma bomba sexual, um espetáculo de mulher.

            Desde que a vira na semana passada, não conseguia se livrar da imagem dela passando perto de sua mesa, quando se dirigia a saída do restaurante acompanhando o seu cunhado traidor.

            O corpo da gostosa o fazia pensar nas peripécias sexuais mais loucas, no Kama Sutra, em posições inimagináveis...              

            Sentado a mesa com os amigos, sentiu-se duro de tesão. Só de pensar naquela mulherzinha que estava destruindo o casamento de sua irmã, sentia um desejo insano de estar dentro dela, entrando e saindo, gemendo de prazer.

            Remexeu-se incomodado. Aquela ereção fazia toda a sua parte de baixo doer. Precisava de uma mulher. Por que não convidara uma de suas amiguinhas para aquele jantar?

            Era certo de que não gostava de misturar as mulheres com as quais costumava se divertir com Carolina, com Raphaela e nem com a sua irmã. Aquela mulheres faziam parte de sua família e mereciam respeito. Mas, se ao menos uma de suas amiguinhas estivesse ao alcance de suas mãos, teria a certeza de se livrar daquela sensação que o incomodava tanto.

            Mas a quem queria enganar? Naquela semana mesmo já não visitara duas coleguinhas suas? Não passara a noite inteira na cama e, quando se fora pela manhã seus pensamentos não haviam retornado a loura exuberante? E a ereção dos infernos não viera junto com as lembranças. Mal saíra da cama de Regina, satisfeito e saciado, e os pensamentos levantaram seu ânimo imediatamente.

            Desistiu de retornar a cama com a colega. Ia ficar esfolado e nada ia resolver.

            Já pássara por isso antes.  Sabia que a única forma de se livrar daquele desejo pela loura seria passar uma louca noite de sexo escandaloso com ela. Isso curava qualquer tesão. Era ela, no momento, o pnjeto de seus desejos. Então, tinha que saciar-se com ela já que  estava tão fissurado na loura do cunhado.

            Por sorte, já se habituara a ideia de levar aquela deusa do sexo para a sua cama. O que não era nada difícil de imaginar. Só precisava de um modo de se aproximar dela e conseguir um encontro.

            Como se tivesse sido invocada por um bruxo, a loura entrava no restaurante onde ele estava naquele exato momento.

            Michel respirou com dificuldade e sentiu o coração acelerar-se.

            O que estava acontecendo com ele? Sua fissura na loura gostosa era tanta assim?

            Arnaldo seguiu-lhe o olhar e sorriu malicioso para o amigo.

            - Conhece a loura? - Perguntou num tom baixo de voz. Não queria que Carolina ouvisse. Todos sabiam da preferência de Arnaldo Glier por louras fantásticas antes de se envolver com a morena Carolina, por quem seu sócio e amigo se apaixonara.

            - É Raphaela...  Raphaela Fernandes. - Arnaldo falou displicentemente como se aquilo não fosse nada importante. Michel queria esganar o amigo. O que ele quisera dizer com aquela simplicidade toda?
       
            - Já pegou? - Perguntou novamente baixando a voz.

            - Quem? Raphaela? Ela não é desse tipo...

            Arnaldo tornou a dar atenção a esposa, o que estava desesperando Michel.

            Percebeu que a mulher não estava sozinha. Estava com um homem de uns quarenta anos a quem ele achara que conhecia.

            Então era assim que a vagabunda agia? Durante o dia transava com seu cunhado e a noite saía com os figurões para se divertir. Seria uma garota de programa?

            E por que Arnaldo ficava naquele namorico com a esposa e não dava atenção a ele? Queria saber mais sobre a tal Raphaela. Já vira aquela mulher com seu cunhado uma seis ou sete vezes. Há três dias, vira a talzinha com um garotinho. Sabia que era seu filho pois o menino a chamara quando ela o colocou no banco traseiro do carro. E agora, ela estava ali com um homem que parecia importante.

            Ela tinha um carro novo e caro, vestia-se bem, deveria morar num belo apartamento. Só podia ser uma prostituta! Tinha que interromper aquele amor açucarado de Arnaldo com Carolina para saber um pouco mais sobre a tal Raphaela.

            - Olhe quem está ali, amor... - Ouviu Carolina dizer ao marido e sorriu satisfeito ao constatar que ela falava da loura.

            - Já vi... É Raphaela. A bela e loura Raphaela! - Disse Arnaldo sorrindo num tom provocador que fez com que Carolina fingisse que lhe dava um beliscão.

            - Ai! Que foi que eu fiz? - Arnaldo fazia cara de inocente que fora castigado injustamente.

            - Pensa que não sei sobre sua preferência por loura? - Carolina devolveu sorrindo.

            - Que maldade! Sabe que só tenho olhos para você, não é, amor? - E beijou levemente os lábios da esposa com os olhos transbordando de paixão.

            - Conhece-a? - Michel perguntou a Carolina com os ânimos renovados, enquanto tentava ignorar a demonstração de carinho que presenciara entre ela e o marido.

            - Claro. Eu e Yara  a conhecemos...

            - Você e Yara? Vocês duas conhecem aquela loura ali?  - Michel estava atônito. Quisera tanto um meio de se aproximar da mulher e aquilo estava lhe caindo no colo? A sorte que sempre acompanhara seu amigo e sócio Luciano também resolvera sorrir para ele?

            - Sim... Eu e Yara a conhecemos e nos tornamos amigas.

            "Oh! Mas isso era demais!"

            - Como a conheceram?




            - Num dia triste... Num  lugar onde nenhuma pessoa gostaria de estar... - Yara falou.

            - E onde foi isso?

            - Na emergência de uma clínica.

            Michel tossiu com desconforto.Lembrou-se de que Yara estivera muito doente. Por pouco Luciano não a perdera. Sorte que fora levada às pressas para a emergência. Sua vida estivera por um fio. Carolina ficara com ela por várias vezes no hospital, nos momentos em que Luciano precisava se ausentar, ir até sua casa, ficar um pouco com o filho.

            - Um dia eu saí do quarto do hospital onde Yara estava, enquanto ela fora encaminhada para fazer mais uma daquelas intermináveis bateria de exames, e eu não poderia ficar com ela. Fui até a lanchonete que ficava em frente a fim de tomar um suco e encontrei Raphaela chorando muito, sentada em uma mesa. Tal situação deveria ser comum pois ninguém se aproximava dela para consolá-la. Pareciam nem mesmo lhe prestar atenção. Então eu pedi licença e me apresentei.  Ela, agradecida por ter com quem dividir sua dor, me acolheu com muito   carinho. Depois, um pouco mais calma, disse-me que o filho estava com pneumonia. E se sentia culpada por que ela o deixara na piscina por horas enquanto o tempo não estava muito quente. Consegui fazer com que ela se acalmasse e que tivesse esperanças de que tudo ia sair bem. E, quando ela soube por que eu estava ali, ficou muito sensibilizada. Quis conhecer Yara e, tão logo Yara pode receber visitas, levei-a para apresentá-las. Assim, ficamos sabendo que as três tínhamos um filho e que tínhamos muitas experiências para compartilhar. Ficamos muito amigas e nos visitamos sempre. A amizade que nasceu entre nós é forte por que surgiu em um momento de dor, de estrema necessidade de um outro ser humano que nos fortalecesse. Todas nós estávamos muito vulneráveis e todas precisávamos de palavras de consolo. E foi assim que nos conhecemos.

            Michel mastigou a informação.                           

            - Não podem convidá-la para se sentar conosco?

            - Gostaria de conhecê-la? - Carolina perguntou depois de estudar-lhe a fisionomia por alguns instantes.

            - Gostaria sim. - Ele respondeu sem pestanejar

            - Oh, não! Não vai dar... Ela está trabalhando agora.

            - Trabalhando?

            Imaginou que tipo de serviço seria e não quis perguntar para não criar uma atmosfera ruim. Tava na cara que era uma garota de programa.

            - Ela trabalha num restaurante?´- Arriscou com cautela.

            - É o melhor lugar para encontrar seus clientes. Assim ela pode avaliá-los e ver como ele se comportam em público.    -

            - Entendo... - Disse sem graça. Mas não entendia. Uma dor inexplicável alcançou-lhe o estômago e ele se sentiu desconfortável e infeliz.

            - Seus serviços são de alto nível,  muito requisitados. O homem que está com ela deve ser muito importante e muito endinheirado pois ela não pega qualquer coisa. - Arnaldo completou.

            Michel se remexeu na cadeira. De onde vinha aquela irritação?

            - A fila de espera é imensa. - Luciano contribuiu com sua opinião.

            - E como vocês podem saber se ela é tão boa? - Perguntou maldosamente tentado atacar de frente o sentimento negativo e ruim que se apossava dele.

            - Conheci alguns clientes dela. E eles gostam tanto que a recomendam a outros. Ela nunca fica sem trabalho. Brigam por ela pois sabem que é satisfação garantida! - Arnaldo interferiu outra vez na conversa.

            - É... Dizem que ela é boa mesmo!

            - E a beleza dela ajuda bastante, né?

            Como seus amigos deixavam suas esposas falarem daquele assunto com tanta familiaridade? Estavam descrevendo o trabalho de uma garota de programa, de uma vadia sem classe! Não reconhecia seus amigos! Se dissesse a eles que um dos clientes da prostituta era o seu cunhado, o que eles fariam? Estava escandalizado com tudo aquilo!

            "Oh, Jesus! A que ponto chegamos na vida!"

            Michel levantou-se para ir embora.  Não queria ouvir mais nada! Estava enojado, indignado, ferido em seu orgulho! E o pior era sentir-se incomodado como se aquela vagabunda fosse importante para ele!

            "Oh, Deus! Odeio essa mulher!" Mas não podia negar para si mesmo que com a mesma intensidade com a qual a odiava, também ardia de desejo por ela!

                                   De quem é esse bebê 3 






       
                  

           

Anjos, Esperança e Gratidão 2 - Um Voo Nas Asas Da Gratidão

        Muitas vezes, a vida ataca de forma tão feroz que uma pessoa se sente perdida em meio a tanta desolação e destruição. Por mais...