domingo, 17 de julho de 2011

Série Os Quatro Elementos 3 - O homem das Águas

oded fehr
 Joyce flagrou a tentativa de assassinato de seu patrão, o escorpiano Eduardo Dreyser em seu próprio barco. Lançada em alto mar junto com aquele homem de mais de
1, 80m e ainda por cima desacordado, tem que salvar a ambos de uma morte certa. Como escondê-lo para salvá-lo e como fazê-lo acreditar que sua esposa quer matá-lo
se ele perdeu parte da memória e prefere acreditar na mulher e não em Joyce que é apenas uma simples camareira de seu barco?
 Os quatro elementos 3 - Um Homem das Águas - Eduardo Augusto Dreyser


                                Signos do Elemento Água: Câncer, Escorpião e Peixes
 Resumo: Ao impedir que seu patrão fosse assassinado, Joyce se vê obrigada a levar aquela árdua tarefa até o fim. Mas, como ajudar seu patrão se  ele parece preferir
acreditar na esposa que quer matá-lo do que nela, que não passa de uma simples camareira de seu barco? E o pior é que, profundamente apaixonada por Eduardo, Joyce
não sabe mais o que poderá fazer para livrá-lo das garras da esposa infiel e malévola.


                                                Um HOMEM DAS ÁGUAS


        Imagine uma certa quantidade de água. Agora, tente pegá-la com as mãos. Consegue? Então. Assim são os sentimentos das pessoas que tem a água como o seu elemento.
A água está ligada as emoções. Dessa forma, torna os nativos dos signos de Câncer, Peixes e Escorpião pessoas muito exposta aos próprios sentimentos, obrigando-as
a manter um forte controle sobre si mesmas, já que, como disse antes, é muito difícil segurar a água. Ela escorre por seus dedos e, em grande quantidade traz a calamidade
com ela, destruindo tudo e a todos que ficarem em seu caminho. Por outro lado, é de importância vital para a humanidade. Sem água, não há vida. faz parte de 70
por cento do corpo humano e de dois terços do planeta Terra.. Sem contar que a água também é o solvente universal. Ela amolece a rigidez da Terra, controla e regula
o poder do Fogo e dá sentimento à comunicação do Ar. Contudo, não pode ser moldada, não pode ser contida. É um elemento muito poderoso.

                                                        capitulo 1

        Estava dormindo e sentiu que alguém entrara em seu quarto. Assustou-se. Quem estaria ali? Ouviu seu nome ser sussurrado. Abriu os olhos. Alguém a chamava.
Era o doutor Eduardo, seu patrão. Por que ele sussurrava seu nome?
        Olhou em seu minúsculo quarto e parecia vê-lo ali, de pé, em frente a sua cama. Ainda usava a camiseta azul clara e o short azul escuro.
        Aquele corpo perfeito, aquele rosto de Oded Fehr com olhos azuis para fazer contraste com a pele extremamente morena...
        "Deus! Como era lindo aquele homem! Lindo, másculo, sexy e perigoso! Era o seu Netuno, o deus dos mares!"
        Mas, por que estava em seu quarto e por que sussurrava o seu nome? Não era o tipo de pessoa que se misturava aos empregados. Na verdade, nem mesmo olhava
para eles, nem mesmo tomava consciência de que a classe trabalhadora existia. Exceto para servi-lo. No auto de sua natural arrogância, prepotência e desprezo pelos
subordinados, Eduardo se sentia o dono do mundo, um ser que jamais se rebaixaria a prestar atenção em pessoas como ela. Por que estava em seu quarto, chamando-a,
com a voz sussurrada?
        Ele não era um chato que incomodava seus empregados depois que eles se recolhiam. A esposa dele sim, faria isso de bom grado. Mas ele nunca! E dona Maristela,
a dondoca loira nem estava no barco. Ficara na casa do condomínio!  Por que então ele, o deus moreno das águas, chamava pelo seu nome? O que poderia querer com ela,
ou querer dela?
        Ela acordou de repente, com o coração aos pulos. Então, estava dormindo. Estava sonhando com o seu patrão!
        Tudo bem que seu mundo se resumia nele, no fato dele existir, mas o sonho parecera muito real. Era como se ele estivesse ali, chamando por ela, precisando
dela por alguma razão. E isso era mais estranho ainda, pois o doutor Eduardo jamais precisaria de alguém!
        Algo estava errado. Podia sentir. Sua nuca se arrepiava. Algo ruim estava acontecendo ou para acontecer.
        "Deus!" Onde estava seu patrão? Só estavam ele, ela e os outros quatro tripulantes no barco. Por que aquela sensação ruim, aquele mau pressentimento?
        Sabia que algo estava errado. Desde que podia se lembrar, sempre pressentia quando algo ruim estava para acontecer. E o fato de acordar daquele jeito, assustada,
com o coração aos pulos, com a boca seca, o corpo tremendo, eram sinais mais que conhecidos de Joyce.
        Ainda se lembrava quando sua irmã Sabrina caíra da laje e quase morrera quando tinha apenas oito anos e de quando Carine batera com o carro e este pegara
fogo. Graças aos céus, ela nada sofrera. Mas lembrava-se nitidamente da sensação desagradável de que algo não ia bem. Exatamente como agora.
        Infelizmente, suas conexões com o desconhecido não iam muito além daquilo. Ela podia sentir que alguma coisa não estava certa, porém, nunca sabia o que era.
Tinha sempre que aguardar, ansiosamente, pelos tenebrosos acontecimentos.
        Ela estava em seu quarto. No barco. Sempre ouvia falar dos piratas que atacavam as embarcações quando estas estavam no mar. E era essa a sua situação. Estava
no mar.
        A tripulação do barco "Indomável" era composta de homens. Eram seus colegas de trabalho e, provavelmente, nenhum deles a atacaria. Eram bastante camaradas
e o ambiente de trabalho era muito bom. Mas, imprevistos sempre podiam ocorrer.
        Bem. Tinha uma faca, não tinha? Embora se sentisse muito amiga da tripulação, estava quase sempre em alto mar. Nunca poderia confiar em um homem. Por isso,
sempre carregava sua faca, na bainha de couro, atada a sua cintura. A noite, colocava sua arma embaixo do travesseiro. Se algum engraçadinho se aproximasse, ela
o atacaria com o elemento surpresa. Exceto o doutor Eduardo, é claro. Ele poderia se aproximar o quanto quisesse. E, justamente ele, que ela sabia que jamais se
aproximaria de sua cama, estivera ali, chamando por ela, precisando dela. "Muito estranho!" O que estava acontecendo? Deveria esconder-se em sua cabine ou ir esconder-se
num outro lugar, ou procurar saber o que estava acontecendo?
        No entanto, o desconforto, naquele momento vinha de fora e ela teria que sair de seu quarto. Não para investigar. Não era tão corajosa assim para se colocar
frente a frente com o perigo. Mas precisava sair de seu quarto para encontrar um esconderijo melhor.
        Se o barco estivesse sendo atacado por piratas, eles iriam roubar o que tinham a intenção de roubar e logo iriam embora. Mas, se algum mal humorado a encontrasse
de shortinho e camiseta, deitadinha ali em sua cama, o indivíduo poderia mudar de idéia e querer provar algum quitute extra. Isso, se fosse apenas um. Podia ser
muito mais que um só pirata.
        De qualquer forma, era melhor precaver-se.
        Com a faca presa na bainha de couro em um cinto que lhe rodeava a cintura e coberta pela enorme camiseta que sempre vestia para dormir, que lhe cobria a
cuequinha de seda, das quais muito gostava de usar,  ela se encaminhou para o  mais distante do lugar onde podia estar a confusão. Ia esconder-se e, quando sentisse
que o perigo estaria acabado.
        Todavia, um pensamento absurdo passou-lhe pela mente. E se os piratas estivessem tentando sequestrar seu patrão? Não o ouvira chamar o seu nome? Ele estava
em perigo! Perigo mortal!
        "Oh! Espero que não!"
        Ela amava aquele homem. Era grosso, arrogante, dominador, mas ela o amava. Há anos que o amava.
        Provavelmente ele nunca a enxergara, nunca olhara para ela mais do que olharia para a mesa, para um balde, mas mesmo assim, ela o amava.
        Que lhe importava se ele nunca prestasse a atenção nela? Só de estar perto dele, servi-lo como sua empregada, ouvir sua voz grave e pausada, ver aqueles
olhos azuis que pareciam queimá-la a cada instante que os fitava...
        Resolveu dar uma olhadinha no convés, só por desencargo de consciência. Se o tivessem sequestrando, ela nada poderia fazer, mas poderia ligar para a polícia.
E os bandidos seriam pegos antes de sumirem com seu adorado doutor Eduardo..
        Foi, pé ante pé, com o coração na mão, atenta a qualquer barulhinho que pudesse vir de sua retaguarda. Não queria ser surpreendida.
        E, quando chegou ao convés, estacou. Não se preparara para ver o que o quadro que se descortinava a sua frente.
        Eduardo Augusto Dreyser estava amarrado a uma cadeira de plástico. Cada uma de suas pernas estava presa por fita adesiva a uma das pernas da cadeira. Suas
mãos estavam atadas com a mesma fita e em sua boca, mais um enorme pedaço de fita estava colocado.
        Ele fitava aos homens com os olhos arregalados de pavor.
        E os homens eram... Eram... Eram... "Oh! Bom Deus! Não! Aquilo não podia ser possível!"  Os homens ali eram os seus colegas! Seus colegas da tripulação.
Lauro Duque, o capitão do Indomável, Tadeu, o marinheiro; Donato, o cozinheiro; Humberto, o mecânico estavam fazendo? Aquilo não fazia o menor sentido! Como os empregados
amarraram o patrão e estavam batendo nele?
        Esmurravam seu amado Eduardo Dreyser sem dó e sem piedade! Quem se atreveria a tal absurdo conhecendo o gênio terrível, violento e vingativo que aquele homem
tinha? O doutor Eduardo ia matá-los. Um a um quando se soltasse. Será que eles não temiam a fúria destrutiva do patrão?
        Viu que o bronzeadíssimo rosto de seu amado Eduardo estava coberto de hematomas. Seus lábios, inchados, sangravam. Os covardes tinham a coragem de bater
num homem que tinha as mãos amarradas. Viu quando Duque começou a amarrar algumas barras de ferros aos pés da cadeira. Iam atirá-lo ao mar, com pesos para que a
cadeira afundasse, e com os pés e as mãos amarradas para que ele não pudesse se salvar.
        "Oh! Oh!  Oh!" Ia desmaiar! "Que morte horrível! Seu patrão nunca poderia morrer daquela forma!" Ele era o homem que controlava tudo! Se existisse uma palavra
para descrevê-lo, seria "controlador". Como então as coisas fugiram ao seu controle daquela forma? E por que queriam matá-lo? Por pior que fosse como patrão, se
não gostavam dele, por que não se demitiram?
        Com o esforço que fizera para não desabar no chão, os rapazes perceberam a presença dela. Tadeu foi em sua direção, mas Duque pediu para que ele a trouxesse
para mais perto, mas que não precisariam machucá-la, pois ela era uma deles.
        Viu os olhos de Eduardo. Era uma mistura de horror e esperança ao vê-la. Ele chamara por ela em pensamento. Confiava nela.. Tinha que soltá-lo. Não poderia
decepcionar ao homem a quem amava! Será que ele sabia que ela não estava de acordo com o que aqueles animais estavam fazendo?
        - Mas... Mas... Mas... O que fazem?
        - Vamos dar um fim ao engomadinho. - Lauro Duque respondeu.
        - Mas ele é nosso patrão!
        - E dona Maristela é nossa patroa! E daí? Ela está nos pagando para que nos livremos dele! E eu estou sentindo um prazer enorme em arrebentar a cara desse
infeliz que só sabe olhar para nós como se fôssemos titica!
        - Mas... Mas não podemos fazer isso! - Olhou para os azuis olhos de Eduardo que, além do pavor, expressavam também ódio, repulsa, vingança. Se ele se soltasse
ia destruir um por um com as próprias mãos. Mas aqueles homens não tinham a menor intenção de soltá-lo, de deixá-lo vivo. Conheciam muito bem o doutor Eduardo. Não
era homem de deixar barato a menor ofensa! Tinham que ter certeza de que estaria mais que morto para que pudessem continuar vivos.
        - A dona Maristela quer ele morto.
        - Mas por que?
        - Ele quer divorciar-se dela.
        - E daí?
        - Ele ameaçou não dar a ela um tostão.
        - Sério? E por isso ela quer matá-lo?
        - Se ela fica viúva vai ficar bilhiardária!
        Os outros homens concordaram rindo.
        - Se você ficar do nosso lado vai ganhar uma grana preta.
        - E se eu não ficar? - Viu um lampejo de esperança passar pelos olhos de Eduardo Dreyser. Mas logo se esfumaçou. Como ela lutaria contra quatro homens? Mesmo
que ela conseguisse libertá-lo, ele já estava bastante ferido para poder lutar contra todos aqueles homens. Era uma situação sem saída. Ela veria seu amor ser morto
de uma maneira muito cruel e covarde sem que ela pudesse fazer alguma coisa.
        - Se não ficar do nosso lado também pode encomendar a sua alma ao criador...
        Viu a arma na mão de Tadeu. Iam atirar em alguém. Nela? Em Eduardo? Viu que Donato e Humberto levantava a cadeira depois de receberem a ordem de Duque.
        - Não acredito! Vão realmente jogá-lo na água? Mas ele vai morrer! Ele está amarrado, com a boca tampada. Vai morrer sem poder lutar... Isso é terrível!
Ninguém merece uma morte dessas!
        - Essa é a idéia, Joyce.
        - Mas não podem matá-lo! Por Deus! Não podem fazer isso! Parem! Parem! Pelo amor de Deus, parem! Não o matem! Não o matem! - Gritava desesperada, correndo
de um lado ao outro sem saber o que fazer.
        - E por que não? Por que não o mataremos? Vamos ganhar muito dinheiro com isso!
        - Mas... Não podem fazer isso! - E correu para os dois homens que já levantavam a cadeira no ar, acima da amurada.
        - Não! - Ela gritou horrorizada. - Não! Não! Por Deus, não!
        Mal teve tempo de pensar no que estava acontecendo pois Duque já a levantara e, sem o menor esforço, a  atirava ao mar.
        Caiu na água quase ao mesmo tempo em que o patrão. Antes viu o olhar aterrorizado que ele lançou a ela. Ele não podia gritar pois estava com a boca atada
pela fita adesiva.
        Imediatamente, ela percebeu que atiravam neles. Torceu para que uma bala atingisse seu patrão. Assim ele não sofreria muito antes de morrer. Quanto a ela...
Bem, não podia pensar agora., Tinha que agir. Precisava ser rápida. Era uma questão de sobrevivência. Fosse ou não morrer, seus instintos a obrigavam a ter em mente
a salvação da própria pele. E a de Eduardo. Ele estava impossibilitado de agir. Estava com os pés e as mãos atados a cadeira. E ela, somente ela poderia salvar a
ambos. Conseguiria? Não importava. Claro que importava! Como viveria sem seu patrão? O que precisava fazer agora era pensar. E ela não era boa nisso. Mas era necessário.
Por Eduardo. E seu corpo estava tão repleto de adrenalina que não tinha como tentar parar aquela luta aparentemente invencível. Eduardo estava afundando e mesmo
que ele fosse atingido por uma ou mais balas, ia tentar soltá-lo daquela cadeira. Ele não morreria preso sem tentar ao menos emergir. Ela não o permitiria.
        Tudo bem que ele nunca a olhara como ser humano, mas ela o amava. Há muitos anos que o amava.
        Mergulhou junto com ele e via as balas zunindo ao seu lado. Passavam muito perto, bem juntinho de suas orelhas. Não sabia agora se queria que uma daquelas
balas acertasse seu patrão. Não agora que tinha uma chance de salvá-lo. Não podia permitir que ele afundasse naquelas águas. Caso contrário, eles não conseguiriam
voltar. Para piorar, ela sabia que os pesos de ferro que vira Duque prender a cadeira levariam Eduardo para o fundo, muito mais rápido do que ela poderia mergulhar.
        Foi ao máximo que seu ar permitiu e com a faca que trazia consigo, conseguiu soltar as mãos e a boca de seu patrão. A tripulação iluminara o lugar a fim
de ter certeza de que os acertara. E fora essa luz que permitira que ela encontrasse Eduardo em meio aquela escuridão sem fim.
        Por sorte, o peso que eles haviam amarrado se soltaram por conta própria com o impacto da cadeira na água. Não deveriam estar bem presos, pois Duque deveria
ter ficado nevoso ou muito irritado ao vê-la.
        Mas não podiam perder tempo dentro da água. Precisavam respirar. E ainda tinha o perigo de levarem um tiro ao emergir. Todavia, precisavam arriscar. Ao menos
Eduardo não morreria amarrado. E, se ele morresse, de que lhe adiantaria viver?
        Fora difícil subir pois os pés de Eduardo estavam atados a cadeira. Ele não conseguiria impulsionar seu corpo para cima com os pés presos. Cabia a ela fazer
todo o esforço para arrancá-lo das negras mãos da morte e daquele mar que queria engoli-los para sempre. E ela não tinha mais ar nos pulmões. Ia morrer ali? Não
ia não. Ia buscar fôlego nem que fosse no inferno, mas não ia ser sepultada naquele lugar por que uma mulher cruel e ambiciosa assim o desejara. Ia chegar a superfície
e fugir das balas. Por  sorte, era noite e o barco se afastava. Felizmente, os tripulantes não se deram ao trabalho de querer comprovar se eles estavam ou não mortos.
E quem acreditaria que ambos sobreviveriam aquele tormento? Quem acreditaria  que ela conseguiria soltá-lo. Logo ela, a quem todos consideravam deficiente intelectual?
Uma retardada mental? Era quase impossível  empreender tal façanha! Especialmente para uma pessoa tão pouco dotada de intelecto quanto ela!
        Quando emergiu, sentiu-se morrer. Quase não tinha ar. Estava morrendo. Mas tinha em mente que não poderia deixar seu patrão na mão. Precisava lutar por ele.
Se fosse apenas ela, ali perdida, naquela imensidão negra... Mas havia Eduardo. E ele era o que importava. Tinha que verificar se ele ainda estava vivo. Mas não
sabia verificar aquelas coisas. Aqueles procedimentos eram coisas de sua irmã médica. O que Carine faria naquela situação?
        No meio daquele oceano, olhou em volta. Não via nada. Já nem tinha certeza de qual fora a direção que o Indomável tomara.
        Eduardo resolvera escolher aquela hora para ficar desacordado e ela não sabia o que fazer.  Estaria morto? Como saber se uma pessoa estava morta? E nem queria
pensar naquilo. Chegara até ali. Soltara as mãos dele da cadeira. Soltara a sua boca. Por que ele estava daquele jeito como se estivesse morto? Não estava bem mais
liberto do que estava antes? Por que não abria os olhos e dizia para ela o que ela deveria fazer, em qual direção seguir? Sabia que uma ou mais balas poderai tê-lo
atingido e que ela não saberia como encontrar tal ferimento. Se ele estivesse morto, não o deixaria ali para ser sepultado pelo mar. Não sabia bem o que fazer. E
se aparecesse com ele morto? Não diriam que ela mesma tentara matá-lo?
        "Céus! Que confusão! E eu não sei resolver nada sozinha!"
        Começara a puxar a cadeira onde ele ainda mantinha os pés amarrados. Tinha que sair dali, mas não podia mais ver o barco. Tudo estava muito escuro e ela
não sabia pensar. Não sabia como resolver problemas tão complicados como aquele.
        Percebera que a cadeira que tanto atrapalhara a subida para fora da água, agora funcionava como uma bóia. E isso, naquele momento era muito bom, pois, como
carregaria aquele homem de 1,83 m pelo mar afora, sem nem ao menos saber em que direção seguir.
        Se não fosse tão burra!
        Sempre fora burra demais. Tanto que nem para seguir os passos dos irmãos e poder recompensar Angélica por tudo o que ela fizera, Joyce não conseguira. Seus
professores diziam que ela não sabia raciocinar.
        Os médicos disseram que seu cérebro fora afetado por muitas pancadas, desde que ela ainda era um bebê.
        Ainda se lembrava, com nitidez, como se tivesse acabado de acontecer, da cara de decepção que vira no rosto de Angélica quando fora informada de que ela
nunca aprenderia a ler, escrever e contar.
        Aprendera! Aprendera a ler. Mas muito pouco. Não fora capaz de ir muito além daquilo. Não aprendera a escrever e nem a contar. Se esforçara. Dera tudo de
si. Queria ver nos olhos de Angélica, o mesmo orgulho que via quando ela falava de Carine, a doutora Carine, de Sabrina, a administradora da loja e de Bruno, seu
irmão médico. E ela? Ela não fora capaz de ser nada!
        Quase não sabia ler. Nunca poderia ser motivo de orgulho para Angélica.
        Carine, que fora adotada depois de ter sido abandonada numa casa de veraneio pelos pais, tornara-se uma médica ginecologista. Sabrina, a filha de Angélica,
se formara em Administração de Empresas e agora administrava a imensa e maravilhosa loja de sua mãe. Bruno, seu irmão gay, que se tornara ortopedista, fora retirado
das mãos da própria mãe quando esta tentava matá-lo.
        Ela poderia ter ficado e trabalhado na loja. Mas, como poderia? Não sabia fazer contas, mal sabia ler.
        E se esforçava bastante. Lia em todos os momentos que estava ociosa. Aprendia muito com os livros. Mas não tinha um diploma universitário. Não era motivo
de orgulho para ninguém. Na verdade, ela não era nada!
        Ainda se lembrava que , naquela mesma manhã, seu patrão ligara avisando que zarpariam naquela tarde.  Pela manhã, como sempre fazia, fora até o barco, limpara
tudo, trocara a roupa de cama, fizera todas as suas obrigações como camareira embarcada que era.
        Era sua obrigação manter a parte interna do Indomável sempre impecável, estivessem ali os seus patrões ou não. Nunca poderia saber quando eles usariam o
barco.
        Ela não tinha a necessidade de ter aquele tipo de emprego. Mas, desde que fora adotada por Angélica, sempre se sentira uma estranha no ninho.
        Na verdade, sempre se sentira assim, mesmo quando ainda morava com sua mãe. Era óbvio que não se lembrava da mulher que lhe dera à luz. Mas se lembrava da
sensação de não ser querida, de não ser aceita, de não ser nada além de um peso para aquela mulher que só sabia agredi-la, usar drogas e viver bêbada, que nem protestou
quando a tiraram daquela casa e a levaram para Angélica.
        Talvez fosse aquele baita complexo de rejeição do qual ela nunca conseguia se livrar, que a fazia sentir-se sempre inadequada em qualquer lugar onde fosse,
em qualquer situação em que se encontrasse.
        Crescera ouvindo sua mãe biológica acusá-la de ser a responsável pelo seu pai ter ido embora, abandonando-a, mal soubera que estava grávida. Depois passara
seus primeiros seis anos de vida apanhando da mãe e dos amantes que a mãe colocava dentro de casa. E, quando sua mãe estava muito bêbada ou drogada, ou as duas coisas,
lembrava-se dela e a punia por ela existir. E isso durou muito tempo, até que alguns vizinhos se compadeceram e a tiraram daquela casa.
        Fora, aos seis anos, morar na casa de Angélica, a quem considerava como sua mãe. No entanto, não fora capaz de retribuir a acolhida como Carine fizera. Não
tinha inveja de Carine. Adorava a irmã. Tinha, com ela, laços muito fortes, pois ambas passaram pela mesma situação de serem rejeitadas pelas próprias mães. Mas
se sentia inútil pois fora incapaz de fazer jus ao que lhe era oferecido.
        Ainda bem que não mais  morava na casa que sua mãe lhe dera. Morara no sótão em cima da loja, por mais tempo do que quisera. Era um lugar seguro e, E, sempre
que queria mudar-se, viver sua própria vida, ir para um outro lugar, tanto Angélica quanto os irmãos, protestavam. Não confiava, que ela pudesse se virar sozinha.
Não confiavam que ela pudesse saber o que fazer em uma situação difícil. E era a mais pura verdade. Não sabia o que fazer agora, naquela situação, onde só tinha
o mar , muito mar a sua volta e um homem grande deitado em uma cadeira de plástico, com os pés atados e ela nem sabia dizer se ele estava vivo ou morto.     E a
cadeira ameaçava afundar nas águas negras a todo instante!
        No entanto, mudara-se, não mudara? Há tres anos conseguira seu chalesinho, com o qual sempre sonhara. Não era ingrata. Queria apenas viver sua vida sem incomodar
os outros, sem estar sempre sendo uma preocupação para a mãe e os irmãos.
        Mas agora, como queria que todas elas estivessem ali, dizendo a ela o que fazer, se preocupando com ela.
        No momento, só lhe restava puxar a cadeira. E ia avançando, sem saber para onde, no meio daquela escuridão que engolia tudo a sua volta.
        Olhou para o céu. Só então percebeu que havia zilhões de estrelas. Já lera, em algumas de sua histórias, que alguém podia se guiar pelas estrelas. Ela, no
entanto, não sabia em que direção estava a terra firme e nem qual daquelas estrelas poderia lhe dar o caminho certo a seguir.
        Talvez, quando o dia amanhecesse...
        Ainda se lembrava de quando fora trabalhar naquela embarcação.  Sua mãe quase teve uma síncope. Mas deixara claro que queria se sustentar e que ser doméstica
era algo que ela saberia fazer muito bem. Sabia limpar, lavar, arrumar. Não sabia cozinhar muito bem, mas o barco tinha um cozinheiro. Um cozinheiro que acabara
de tentar matá-la!
        Mas lembrava-se que se apaixonara por Eduardo assim que colocara nele os seus olhos. Ele era o homem mais lindo e perfeito que ela já vira. Parecia artista
de cinema americano. Era alto, muito moreno, cabelos cheios, negros e encaracolados e um par de olhos azuis que faiscavam como aquelas estrelas que ela admirava
agora.
        E aqueles olhos eram puro magnetismo. Era impossível olhar para eles sem se perder naquela imensidão, naquele infinito, naquele mar de paixão.
        Vira Eduardo no barco, quando passeava no cais e ouviu o capitão falando com o marinheiro que precisavam urgentemente de uma camareira. E ela se apresentou
para o serviço e foi logo admitida pelo próprio dono do barco, que a entrevistou e mandou que ela começasse imediatamente.
        Quando deu a notícia a família, achou que todos ficariam contentes em saber que ela arranjara um emprego. Mas não ficaram. Temiam que ela não seria capaz
de fazer tal serviço, que seria humilhada diante de estranhos e poderia sentir-se muito mal com uma situação tão devastadora.
        Nem para ser camareira eles acreditavam que ela tinha potencial!
        Se dera bem no emprego. Embora seu patrão a ignorasse totalmente como pessoa, gostava e elogiava o seu trabalho como camareira. E esse era o seu prazer maior.
Sabia que um homem daqueles nunca olharia para uma mulher insignificante como ela, e ainda por cima, tão burra. Mas ele sempre era gentil quando ela cometia algum
erro. Era sempre paciente com ela.. Sua esposa era o contrário. Tratava-a aos berros e nunca deixava que Joyce esquecesse o quanto era burra, lerda, desajeitada.
        Dona Maristela brigara muitas vezes com o doutor Eduardo, exigindo que a despedisse pois ela era muito incompetente. Ele, porém, fingia nem ouvir o que a
esposa falava a respeito dela. E, quando flagrava a mulher tentando ofendê-la ou humilhá-la por não ter feito bem o seu serviço, ele brigava feio com a esposa. Tanto
que dona Maristela jamais a xingava quando ele estava no barco.
        Joyce olhou em frente e viu umas luzes pequeninas que começavam a despontar bem longe, no horizonte.
        Chorou de felicidade. Era uma sorte que estivesse indo na direção certa. Pensando bem, sorte seria que aquelas coisas desagradáveis não tivessem acontecido.
Como poderia achar que era bom estar ali, no meio do mar, na escuridão, com frio e com medo? E aquelas coisas horríveis tinham que ter acontecido logo com ela que
não era nem um pouquinho inteligente? Que não era dotada de esperteza suficiente para tirar a ela e a seu patrão daquela enrascada? Pobre dele que agora dependia
dela para livrá-lo daquele pesadelo!
        Usou todas as forças que possuía para vencer aquela distância. Tinha que chegar a areia e descansar. Estava exausta. No limite de suas forças. Tinha que
chegar a areia e pedir ajuda. Quem a ajudaria naquela situação? Ninguém deveria saber que estavam vivos. Caso contrário, a mulher de Eduardo, dona Maristela, poderia
tentar matá-los outra vez.
        E, será que o doutor Eduardo estaria vivo? Estava silencioso, sendo arrastado por aquele imenso mar negro! Ele não era o tipo de homem que se deixaria levar
a qualquer lugar a não ser que estivesse morto.
        "Deus! Não deixe que ele morra!"
        A simples idéia de que ele pudesse estar morto a apavorava e a deixava ainda com mais força para chegar até onde aquelas pequeninas luzes brilhavam.
        Enquanto avançava apenas com uma mão, segurava, com toda a força, a cadeira onde ele estava amarrado. Tinha medo de que se não o segurasse com força, a correnteza
poderia afastá-lo dela e, naquela escuridão, como ela o encontraria outra vez?
        " Deus! Me escute! O senhor nunca esteve do meu lado. Mas preciso que o senhor me ouça agora. Tenho que chegar aquela praia e conseguir ajuda. E o doutor
Eduardo precisa estar vivo! Se ele estiver morto, de que me adiantará viver? Por favor, me ouça!""
        Quando chegou a terra, teve que puxar Eduardo e sua cadeira para a margem. O esforço que fazia era sobre humano. Não aguentava mais. Seus músculos estavam
arrasados. Seus nervos, destruídos. O que lhe restava era puro instinto movido por adrenalina, a qual nem imaginava de onde vinha.
        Soltou-se na areia, ao lado da cadeira. Eduardo estava deitado de lado, ainda com as pernas presas.
        Joyce deixou-se ficar ali. Estava muito cansada. E nem percebeu que adormecia, aconchegada ao corpo de Eduardo.
        Quando abriu os olhos, o sol a  cobria com seu manto quente. Aconchegou-se ainda mais a Eduardo e saboreou aquela doce sensação de estar tão pertinho dele.
Era delicioso. Ficou ali por alguns minutos. O suficiente para lembrá-la de tudo o que acontecera. Não queria pensar, não queria lembrar. estava tão bom ficar ali,
junto ao calor de Eduardo.
        Mas aquilo era impossível. Ele era o patrão, o doutor Eduardo Dreyser! E quem era ela para se deixar levar por aqueles pensamentos tolos? Precisava pensar.
Precisava agir. Precisava de ajuda.
        No entanto, deixou-se levar mais uma vez por aquele momento de insanidade. Sentir o calor de doutor Eduardo...
        Eduardo! Calor! Então... Ele estava vivo. Por várias vezes, enquanto o transportava pelo mar, acreditara que empurrava um corpo morto. Mas ele estava vivo!
Deus a ouvira. Trouxera-o vivo até ali. Mas queria, necessitava que ele estivesse bem. Ainda precisava que a mão de Deus o protegesse. A ele e a ela. Como será que
ele estava? Estaria ferido? Agora o dia estava claro, ela poderia descobrir se ele estava ou não ferido.
        Pelo que podia ver, ele não estava. Pelo menos achava que nenhuma bala o ferira. Mas não podia ter certeza. Já ouvira Carine, César e Bruno conversando sobre
ferimentos a bala que eles não tinham conseguido ver. E o rosto do doutor Eduardo estava todo machucado. Vira Duque esmurrá-lo várias vezes. Teria algum osso quebrado?
Oh! Como tudo era tão difícil para ela!
        Olhou em volta. Não sabia que praia era aquela. Teria chegado a África? Sempre soubera que a África estaria do outro lado. A faixa de areia era estreita.
Adiante, muito perto de onde estava, viu uns degraus de concreto que subiam para um calçadão. Lá em cima, sob uma amendoeira,  havia um orelhão. Ligaria a cobrar
para o celular de sua mãe. Angélica saberia o que ela deveria fazer.
        O sol estava despontando, mas ela não tinha a menor noção de que horas seriam. Contudo, sabia que, em uma praia, muitas pessoas se levantavam cedo para caminhar.
O que diriam ao vê-la toda desgrenhada com um homem dormindo atado pelas pernas a uma cadeira de plástico?
        Estava cansada. Muito cansada. Fizera um tremendo esforço para nadar até aquela praia, carregando a cadeira onde seu patrão estava atado. Precisava soltá-lo
daquela cadeira. Precisava de forças para empreender qualquer movimento, por menor que fosse. Todo o corpo doía. Mas não podia se arriscar a que vissem um homem
preso a uma cadeira pelas pernas. Até ela, que não era muito inteligente estranharia tal coisa. Tinha que soltá-lo antes que as pessoas o vissem daquele jeito. Ainda
conseguiu se esforçar e cortar a fita adesiva que atava as pernas dele às pernas da cadeira de plástico.
        Aquela cadeira facilitara em muito o seu trabalho mantendo Eduardo acima das águas. Mas isso não evitara que todos os seus músculos e todos os seus nervos
estivessem insuportavelmente doloridos. Quase não aguentava fazer nenhum esforço. Cortar aquelas fitas pareciam-lhe desgastante demais.  Mal conseguia abrir e fechar
os olhos. Entretanto, tinha que ligar para sua mãe.
        Só de pensar em ir até o lugar onde estava o orelhão, sentia-se como se fosse obrigada a percorrer a São silvestre. E o orelhão não devia estar a mais de
cinquenta metros de distância do lugar onde estivera dormindo até agora junto a Eduardo. E como fora bom dormir sentindo o calor dele junto ao seu corpo! Pelo menos,
uma coisa boa em meio a tanta desgraceira. Quando ela poderia imaginar que adormeceria um dia coladinha ao corpo dele? Tudo bem que ele nem sabia que ela estava
ali. Se soubesse, gritaria, daria um show. Quem ela pensava que era para tomar tal liberdade?
        - O que aconteceu, filha? Está ligando do barco?
        - Tentaram matar a gente, mãe.
        - Matar? O que está acontecendo? Quem tentou matar quem? - Angélica gritava do outro lado da linha. O que estava acontecendo? Precisava de alguém ali com
ela naquele momento. Sua filha estava em perigo? Se não estivesse no barco, onde estaria? Precisava acalmar-se. Caso contrário, Joyce poderia ficar ainda mais nervosa.
        - Mãe... Não quero que fale com meus irmãos que eu estou ligando.
        - Elas não estão aqui, Joyce. Conte essa história direito. Você está me deixando nervosa.
        - Agora está tudo bem. Só não sei onde estou.
        - Como assim, não sabe?
        - Não sei mãe. Preciso de ajuda, mas não sei onde estou. E o doutor Eduardo está morrendo. Acho que ele está ferido, mas não posso ver os ferimentos.
        - Vou mandar a polícia até aí e...
        - Não! - Entrou em pânico. Não! Não chame a polícia! Por favor, mãe, não chame a polícia!
        Angélica percebeu que a filha estava apavorada.
        - Tudo bem. Acalme-se. Não vou chamar a polícia, tá bom?
        - Sim... A mulher dele tentou matar a ele e a mim. Se a polícia descobre, vai haver confusão. Promete que não vai chamar a polícia, mãe. Promete, vai.
        - Prometo até saber de você o que está acontecendo. Onde você está?
        - Não sei. - Olhou a sua volta mais uma vez. -  Numa praia. Mas não sei onde. Não a conheço.
        - Tudo bem. Está num orelhão?
        - Sim. - Enquanto falava, Joyce olhava para seu patrão que estava deitado, desacordado, há uns poucos metros. Tinha medo que ele acordasse de repente e não
compreendesse o que estava acontecendo e ela não pudesse estar ao lado dele para poder lhe explicar como haviam conseguido chegar até aquela praia desconhecida.
Era uma praia deserta. Ou quase deserta. Havia poucas casas um pouco distante de onde estava. Era quase um milagre que existisse ali um telefone.
        - Tudo bem. Vou descobrir de onde é esse orelhão e estarei aí o mais rápido que eu puder. Não saia daí, sim?
        - Como você vai nos encontrar?
        - O número do orelhão de onde você está ligando está registrado aqui no meu celular. Vou ligar para a companhia telefônica e num instante saberei onde você
está.
        - Você pode fazer isso? - Joyce perguntou admirada. Se sua mãe estivesse com ela durante aquela noite, talvez os tripulantes nem se atreveriam a contradizê-la.
        - Bem, se eu não puder, Renato pode.
        Isso. Seu cunhado Renato era juiz. Ele poderia saber qualquer coisa. Quantas vezes o ouvira dizer que podia fazer o que quisesse. Bem. Seu patrão também
dizia a mesma coisa.. Devia ser coisa que homem gostava de dizer. Na verdade, Eduardo, agora, não podia fazer coisa alguma.

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                       Um homem das águas -  Série Os Quatro elementos 3  

              
                               

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