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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Romances no Rio 5 - As Cartas de amor


george clooney
Dayse Theodoro se apaixonou por seu professor de Geeografia quando tinha 14 anos. Agora, mulher feita, aoss 22 anos, ainda conserva a mesma paixão que a fez perseguir
Felipe Mancini por todo o Rio de Janeiro durante todo o tempo em que esteve apaixonada por ele. E Felipe continua se esquivando do amor daquela garota que se tornou
uma mulher que mex com as estruturas firmes do rapaz.

              

         Capítulo 1

    Felipe Mancini olhou mais uma vez para a tela de seu computador e mais uma vez apertou os olhos como se ao abri-los, algo diferente pudesse acontecer.
    Nada mudava ´pirém. O nome de Dayse Theodoro continuava ali, bem a sua frente como a desafiá-lo, em primeiro lugar, na lista dos aprovados, que iniciariam o
seu primeiro dia de trabalho naquele momento.
    Trocou de arquivo  em sua tela, e novamente, o nome de Dayse lhe
saltava aos olhos numa outra listagem. O que ela queria, afinal? Acabar com o sossego que
ele tinha, que levara anos para conseguir? Queria destruir as cercas que ele, dolorosamente construíra ao redor de si, para evitar que pessoas como Dayse pudessem
invadir o seu espaço e deixá-lo a mercê de um mar de frustrações das quais ele morria de medo?
    Ele não queria mais sofrer. Uma paixão avassaladora já lhe destruíra o ânimo . E não fora apenas isso. Tivera que aprender a cuidar de seus sentimentos, a fugir
dos problemas que o emocionavam desde cedo. sua mãe o forçava a isso.
    Estava agora com trinta e seis anos. Era adorado por todos os seus funcionários por causa de seu jeito sempre calmo, sereno, trenquilo.  Visto como o rei da
paciência e da gentileza, tinha atitudes e gestos extremamente lentos, lânguidos e ponderados. Demonstrava pensar muito antes de agir. E, para quem não o conhecesse,
poderia passar a imagem de pessoa indecisa, o que era uma inverdade quando se tratava de assuntos relacionados ao trabalho. Contudo, sua vida pessoal vivia em total
estado de espera. Quase nunca sorria, embora não passasse a imagem de uma pessoa triste ou melancólica. Simplesmente aparentava encontrar dificuldade em expressar
um amplo sorriso.
    Era estremamente bonito e atraente. Alto, com 1,86 metros e um físico bem distribuído, espalhava seu charme e sensualidade por onde quer que fosse, sem ao menos
se dar conta disso. Tinha cabelos na altura dos ombros, escuros e cacheados, quase sempre presos por um rabo de cavalo. Seus olhos
castanhos dourados, eram estranhamente tristes e distantes. porém, sempre alertas.Por causa da lentidão de seus gestos, muitas mulheres acreditavam que seria fácil
conquistá-lo. No entanto, essa tarefa se mostrava árdua demais, e como ele parecia imune às cantadas e demorava tanto a perceber as investidas femininas, as mulheres
acabavam desistindo vencidas, pelo cansaço, após uma longa espera. Constantemente usava óculos, não porque tivesse sérios problemas de visão, mas era mais uma armadura,
drew
mais uma fonte de auto defesa.
    Mulheres suspiravam por ele, pelo seu jeito lânguido de piscar os olhos com aquelas pestanas
longas, espessas e terrivelmente escuras.
    - Parece uma tartaruga perneta, de tão vagaroso que é. - Comentavam alguns desafetos.
    - Parece. Mas não se fie muito nisso, pois seu cérebro, quando ele quer ou necessita, viaja à velocidade da luuz. - Respondiam sempre a um comentário desagradável
sobre o reitor. - Quando ele tem um objetivo, nada consegue detê-lo. Basta observar todos os obstáculos que precisou ultrapassar para chegar onde chegou.
    Essa morosidade em seus gestos deixavam as mulheres completamente extasiadas. Achavam-no
muito educado e o rei da gentileza. Acabavam confundindo seus gestos lentos em furtivas
cantadas, as quais Felipe Mancini ignorava completamente.
    Na verdade, ele parecia totalmente alheio ao universo feminino.
    Levantou-se e olhou por uma das duas janelas de seu gabinete. Este ficava na lateral do prédio onde trabalhava. Na universidade onde ele há três anos era o reitor.
Aquela janela mostrava todo o prédio anexo ao colégio de aplicação que fazia parte dos domínios daquela universidade. Lá funcionavam o ensino fundamental e médio,
além da educação infantil.
    Era uma gigantesca universidade. Imensa em sua forma física e imensa em sua atuação como uma das maiores universidades particulares do país e que contribuía
enormemente com o futuro da nação. E ele se orgulhava disso.
    De sua janela, Felipe Mancini via os aprovados se dirigirem ao anexo onde o ensino médio iria funcionar. Ainda não começara as aulas e os aprovados teriam algumas
reuniões antes da chegada dos alunos, que aconteceria dali há uma semana.
    Viu Dayse Theodoro encaminhar-se para o anexo. Suspirou fundo.  Amaldiçoou a si mesmo. Voltou a sentar-se e olhou mais uma vez para o computador. Dayse concorrera
a duas vagas distintas para preencher os cargos que  aquela universidade estava oferecendo. Estavam iniciando um novo projeto, uma nova escola. As provas haviam
sido programadas para dias diferentes, a fim de que os candidatos pudessem concorrer a mais de uma vaga.
Na verdade, os candidatos eram ex alunos daquela universidade e as vagas estavam sendo
oferecidas exclusivamente a eles.
    E isso fora muito bom para Dayse. Ela se inscrevera para os dois cargos que eram oferecidos. Passara em primeiro lugar em em ambos para desgosto de Felipe Mancini.
Ele não teria assim, nenhum argumento para deixá-la de fora.
    Dayse concorrera a uma vaga na educação infantil. Ia trabalhar na Pré escola. Há cinco anos era
professora em uma outra escola, desde que se formara no Curso Normal, mas era ali, perto de Felipe Mancini que ela queria estar.
    Também concorrera às vagas para o ensino fundamental e médio.  Ia lecionar Geografia. Fora a faculdade que fizera e onde Felipe fora seu professor.     Amava-o
desde os seus quatorze anos quando fora sua aluna pela primeira vez, quando cursara o primeiro ano do ensino médio, num colégio ali perto. Fora para a faculdade
onde ele lecionava só para estar perto dele. Conhecia a paixão dele por geografia, por ciências política, por antropologia e sociologia. Seguira-lhe os passos se
especializando nas mesmas coisas que ele gostava. Não somente por ele. Gostava realmente daquilo tudo.  Ou talvez fosse por ele. Ela não saberia explicar. Só queria
estar onde ele estivesse, fazer com ele o que ele fazia. Amava-o desde sua adolescência. Escrevia-lhe cartas falando-lhe de seu puro e ingênuo amor. Seguia-lhe os
passos onde quer que fosse. Se inscrevia em todos os cursos que ele dava, ia às mesmas festas em que ele poderia ir e até em um simpósio sobre Ciências políticas
em Paris que ele fora participar, ela dera um jeito de estar lá também.
    Felipe Mancini era um vício para Dayse. Onde quer que fosse, o que quer que estivesse fazendo, era somente nele que ela pensava. Nada mais ocupava o seu pensamento.
Apenas eele. Via-o com seu sorriso lento, com seus olhos dourados como uma jóia rara, sua voz possante e ao mesmo tempo suave e
seus gestos calmos e lentos. Ele era o seu homem tranquilo. Sempre com um ar distante. Mesmo quando estava triste ou alegre, era difícil saber qual era o seu verdadeiro
estado de espírito. Era sempre amável e afetuoso. Suas emoções, caso existissem, ficavam guardadas em algum lugar inatingível.
    Quando, um ano após conhecê-lo, soubera que era um homem casado, quase morrera de angústia. E, para seu azar, um dia o encontrara com a sua belíssima esposa,
no shopping em São Conrado, bairro onde ela sabia que ele morava e que, por obra do destino, era ali que ela morava também. Vira nos olhos dele a adoração que sentia
pela mulher.  Queria que aquela morena lindíssima e sofisticada caísse morta e se incinerasse, desaparecesse da face da terra.
    Em sua sala, Felipe Mancini se preparava psicologicamente para dar as boas vindas ao primeiro grupo de professores que atuaria ali, naquele recém criado colégio
de aplicação. Fora uma de suas metas ao ser empossado à reitoria. Agora, um sonho antigo estaria se realizando e ele estaria muito feliz, se Dayse não se encontrasse
ali para atrapalhar os seu sonho. Ela era o seu pesadelo. Não teria paz com aquela menina por perto para lhe impor sua indesejável presença. Sim. Era isso que Dayse
era para ele: seu pesadelo particular.
    Só de pensar em Dayse ele se arrepiava. Não era um arrepio de prazer e sim de horror. Há oito anos que ele se via como o objeto de desejo daquela adolescente
louca que o seguia por todo o Rio de Janeiro e até em Paris, quando no ano passado fora a um simpósio de educação.
    A primeira vez que recebera sua cartinha de amor, ela tinha apenas quatorze anos. Era natural. Já estava acostumado a essas demonstrações de carinho por parte
dos adolescente. Porém, no segundo ano, a menina continuara a lhe declarar o seu amor. Ao final do terceiro ano, pensou que se livraria dela, mas qual não fora a
sua surpresa ao ao vê-la em sua classe de geografia, na faculdade onde ele lecionava e era o diretor do curso.
    Isso, sem contar que, durante as férias daquele ano, ela aparecia em quase todos os lugares em que ele estava. Era a coisa mais normal que ele virasse a cabeça
e desse de cara com ela.
    Certa vez, quando passeava com Vera, sua esposa, em um shopping perto de sua casa, deu de cara com a adolescente e viu que ela não gostara do que vira. Chegou
ao absurdo de sentir-se culpado por estar ali com sua mulher.
    Durante os quatro anos em que ela estudara na faculdade, ele tivera que aceitar sua incômoda presença. Ao fim do último ano, já na reitoria, ele acreditava que
ela desapareceria de sua vida. Porém, ele mesmo lhe dera a munição necessária para que ela o atormentasse pelo resto de sua vida ao dar prosseguimento aos projetos
guardados no fundo de uma gaveta, objetico do penúltimo reitor, que era a criação de um colégio de aplicação no campus da universidade e, cuja obra já havia sido
iniciada anos antes e esquecida, após a morte daquele mentor.
    E esse reitor, esse mentor tão adorado era o seu pai, fundador daquela universidade.
    Felipe Mancini se propusera a dar seguimento aquela obra e, tão logo
tomara posse, foi disponibilizando tudo o que parecia ser necessário
para a continuação daquele projeto. Em apenas dois anos e meio, tudo estava pronto e agora, ele teria que arcar com o resultado daquele concurso que abrira as portas
daquele colégio para Dayse.
    E, para piorar a situação, a teria por perto pela manhã e pela tarde, pois ela passara nos dois concursos que ele
mesmo propusera. O que ele podia fazer?
Viviam num ppaís livre e democrático!
    Ele, que pudera respirar aliviado naqueles três  últimos anos, pois, não dera aulas em nenhum outro lugar, ficara fascinado diante da idéia de ter-se livrado
dela em parte. Após terminar o curso de graduação, ela voltara para fazer uma pós, mas quase nunca se encontravam.
    Ele não suportava mais tê-la como sombra. Ela nunca lhe dava trégua.  Onde quer que ele estivesse, lá estava ela: podia ser no restaurante, nos teatros, nas
casas de show, e até mesmo nas bancas de jornais que ele costumava frequentar.
    Só conseguia despistá-la quando visitava seus avós em Florianópolis. Ela, nem ele sabia bem o por que, nunca o seguira até ali. Talvez fosse por que nunca se
demorava por lá. Geralmente, gastava um final de seman ou um feriado prolongado e, nessas ocasiões, sua mãe a levava para viajar também. Mais tarde, quando ela crescera,
ela costumava acampar ou fazer qualquer outro programa com seus inúmeros amigos. Portanto, quando ia a Floripa, ele podia respirar aliviado, por mais breve que fossem
esses momentos. Lá, ele não corria o risco de dar de cara com Dayse todas as vezes que
atravessava uma rua, entrava num restaurante ou dobrava uma esquina.
    Ela ainda parecia uma adolescente depois de tantos anos e ainda agia como se fosse uma. Continuava a lhe mandar cartinhas todas as sextas-feiras e, eventualmente,
flores e bichinhos de pelúcia. Tinha dúzias deles. Mem tinha mais onde guardar.
    Por fim, acostumara-se de tal forma a tê-la como sombra que não se assustaria se um dia a visse deitada em sua cama ao fim de um cansativo dia de trabalho.
    Porém, a presença dela ali, tão perto, todos os dias, poderia ser algo desastroso demais para ele.
    Desde que ele e Vera haviam se separado, há dois anos, ele não conseguira se envolver com mulher nenhuma. Vera o destruíra. Não estava mais disposto a se envolver
com nenhuma outra. Menos ainda com aquela garota desmiolada que passara a adolescência inteira atrás dele e se ele bobeasse, passaria a vida adulta também. E ele
não queria uma louca perturbando-lhe a paz de espírito que custara tanto para conseguir.
    Que obsessão era aquela? Não podia ser algo normal. Nenhum de seus amigos de profissão  tinham uma história daquela para contar. Sabia que era natural que as
alunas se apaixonassem por seus professores. Passara por isso muitas vezes. Todos tinham, pelo menos, uma experiência daquele tipo. Não importava a aparência física
e nem se o professor tivesse uma idade avançada; sempre aparecia, em algum momento, uma declaração de amor em sua mesa. E sabia também, que a carência de alguns
de seus amigos os levavam a um romance com uma das alunas. E, muitas vezes, nascia ali um amor verdadeiro. Alguns colegas seus haviam se casado com ex alunas. Porém,
o contrário também acontecia. Vira vários colegas serem demitidos por causa de envolvimento com adolescentes ensandecidas de paixão. E ainda tinha aqueles que não
conseguiam dizer não a uma ninfeta de 15 anos que até um strip tease resolviam fazer na ânsia de conquistar o professor amado. Felizmente, nunca passara por isso.
Alguns homens não conseguiam raciocinar com a cabeça certa e mantê-las em seu devido lugar, quando meninas perdiam as suas. Eram crianças as voltas com suas primeiras
paixões e ele compreendia bem esses caminhos pelos quais, quase toda adolescente passava. Afinal, ele era um professor e devia estar atenta aos distúrbios hormonais
desconhecidos que faziam mocinhas e rapazes perderem o pouquíssimo juízo que tinham. Duvidava porém, que Dayse se encaixasse em qualquer um dos casos que ele já
tomara conhecimento.
    De qualquer forma, fosse para ser um caso bem sucedido ou não, ele não queria envolvimento com uma menina que há oito anos lhe jurava amor eterno e incondicional.
Aquilo, de certa forma, o incomodava bastante.  Não sabia se era por que considerava a garota, uma maluca de carteirinha ou por que, na realidade se sentia envaidecido
por aquele amor adolencente, cultivado ao longo dos anos.
    Todavia, não podia levar aquilo tudo muito a sério. Com certeza, a garota deveria fazer aquilo apenas para tirá-lo do sério. Na verdade, deveria ser uma garota
cheia de namorados, já que era tão bonita, atraente e sensual. Não iria jamais acreditar que uma menina daquelas, que já deveria estar com vinte e dois anos, estava
esperando por ele, como ela fazia questão de frisar em suas infalíveis cartinhas de amor, as quais ele recebia todas as sextas feiras, desde que a conhecera, há
oito anos.
    Suas cartinhas nunca deixaram de chegar-lhe às mãos. Mesmo quando ainda era casado, sempre as lera. Passara a esperar, ao longo dos anos, que as infantis cartinhas
de amor chegassem até ele. Lera todas. Pior!  Guardara todas. E nem sabia por que. Só sabia que eram bem mais que quatrocentas cartas.
    O tempo passara. Dayse fizera quinze, dezesseis e assim por diante.
Se transformara numa exuberante mulher. Tinha cabelos compridos e castanhos, mas ela mesma não crescera muito. Era baixinha e um pouquinho acima do peso. Nada que
comprometesse sua silhueta. Era até agradável para ele saber que ela não sequia a aparência das modelos, como quase todas as meninas da idade dela. Suas formas eram
perfeitas e arredondadas nos lugares certos.
    Muitas vezes se surpreendia admirando a beleza de Dayse. E muitas vezes, flagrara a si mesmo pensando em levá-la para a cama e acabar com a curiosidade dela
e também com a dele.
    Mas nunca faria uma coisa daquelas. A garota só lhe traria aborrecimentos e amolação e ele não precisava de mulher nenhuma no seu pé.  E tudo o que aquela desmiolada
poderia trazer-lhe era encheção de saco.
    Além do mais, depois do que Vera lhe fizera, depoois do que Vera lhe causara, nunca mais se envolveria com mulher alguma. O sexo feminino não era digno de confiança.
E ele não sabia realmente, quais eram as verdadeiras intenções daquela garota agora. Aos quatorze anos, com toda a certeza, ela era uma menina ingênua e pura, para
quem a descoberta do amor era algo lindo. Agora, oito anos mais velha, mesmo jurando em suas cartinhas de sexta-feira que ele era o seu único amor, sabia que não
podia confiar naquelas bobagens. Ela era uma garota antenada, que vivia indo às boates com a sua turma, gostava de dançar e de se divertir e nada tinha de menina
tímida e ingênua. Muito pelo contrário. Era o que todos chamavam de descolada. Era, na verdade, uma líder. Uma maluquinha cheia de idéias e que gostava de viver
a vida. Era óbvio que só podia ser uma piada aquelas declarações de amor eterno. Talvez ela tivesse feito uma aposta ou coisa parecida. O fato é que nada no comportamento
daquela menina batia com as cartinhas amorosas e cheias de florzinhas que ela lhe enviava. Parecia coisa de duas pessoas diferentes. Ela era muito esperta para
se prender aquelas bobagens românticas de meninas que tinham a cabeça cheia de sonhos e que ainda acreditavam em princesas e príncipes encantados.
    Mas, na realidade, não queria perder tempo pensando naquela garota e em suas cartinhas absurdas. Ele era um reitor. Um magnífico reitor e tinha uma universidade
para comandar. Tinha milhares de problemas para resolver e não iria ficar ali, perdendo seu precioso tempo, pensando numa mulher de vinte e dois anos que agia com
ele, como se ainda tivesse quatorze.Sem contar que com seus shortinhos e saias de dez centímetros que deixavam suas coxas grossas à mostra, como poderria ele crer
que ela se guardava para ele? Devia rir dele quando escrevia as cartas dizendo que esperava que ele fosse o seu primeiro homem!
    Na verdade, não deveria perder seu precioso e escasso tempo pensando em fazer amor com uma maluquinha.  Ele tinha mais o que fazer!
    Dayse não cabia em si de contentamento. Não lhe importava que Felipe Mancini não a quisesse e nem ao menos tomasse consciência da presença dela. Só de estar
perto dele, tudo parecia ficar mais colorido.
    Ela não se importava que ele amasse outras mulheres, que dormisse com outras  mulheres.
O seu amor era uma via de mão única. Totalmente unilateral e platônico, ela reconhecia.
E não se envergonhava por isso. Também não escondia de ninguém aquela paixão que não fazia sentido a nenhum outro ser humano.
Sabia que era pura perda de tempo. Ele jamais a veria como mulher. Mas não se importava. Era
dele. Seria dele eternamente. Nunca poderia ser de outro homem. Era a ele a quem amava, muito
mais do que a si mesma. Seguia-o por onde quer que ele fosse. Colocava as mãos nos mesmos
lugares onde ele colocasse as dele, na tola esperança de trcrbrt daquele objeto as mesmas
energias que o obejeto tivesse capturado dele. Olhava o céu de modo radiante ao contemplar o
sol, a lua ou as estrelas e acreditar que o que via nos céus era a mesma imagem que ele via.
que aquele sol explendoroso fora visto por Felipe.
    Estar no mesmo ambiente significava respirar a mesma atmosfera que ele.  Tudo em seu
mundo girava em torno de Felipe Mancini. Como poderia ser diferente. Ele roubara seu coração
e se negara a devovê-lo.
    - Você é romântica demais! - Diziam seus amigos. - Isso não pode ser normal. Estamos na
era da tecnologia de ponta. Não há espaço para esse romantismo ultrapassado!
    Ela não se incomodava com as piadinhas dos amigos. Se não amasse Felipe, a vida não teria
cor, os sons não teriam o menor significado.
    Todos acabaram se acostumando aquele sentimento estranho que ela nutria por seu professor. Com o tempo, já nem se importavam mais. Porém, muitos de seus amigos
acreditavam ser algo doentio. Não era natural que uma bela mulher nutrisse um sentimento platônico por um homem que não lhe dava a menor confiança, numa cidade como
o Rio de Janeiro e em pleno século 21, por oito anos a fio e ainda por cima, sendo infatilmente fiel a esse amor não compartilhado.
    E, no entanto, para Dayse, amar a Felipe Mancini era a coisa mais natural do mundo. Nem imaginava a sua vida sem aquele amor. Tinha certeza de que um dia ele
a enxergaria, não lhe importava quanto tempo aquilo iria demorar para acontecer. Aquele amor fazia parte dela como o seu coração.
    E, realmente, era fiel a ele. Jamais namorara um rapaz, nem por brincadeira, depois que o conhecera.
    Era até meio estranho, pois aos treze anos, já havia ficado com muitos meninos que regulavam a idade com a dela e todos os adultoss lhe diziam que era muito
namoradeira, que seria um terror quandoficasse mais velha.
    Entretanto, no dia em que se sentara naquela sala de aula e aquele homem maravilhoso entrara, seu mundo se resumira nele. Nunca mais ficara com um garoto. Nunca
mais beijara ninguém.
    Contudo, a recusa dele em olhá-la como uma garota, uma possível namorada e até mesmo como sua esposa, não a trancara dentro de casa.
    Não era deprimida por aquele amor não correspondido. Sentia-se fútil como quallquer mulher vaidosa que se preocupava com manicure, cabelereiro, roupas e sapatos
da moda.
    Gostava de se vestir como as garotas de sua idade. Pelo menos, assim ela pensava. Na realidade, embora usasse roupas curtas e até um pouco provocantes, parecia
uma menina de tanto rosa e tons bebês que usava. Se vestia para ele. Queria que ele visse como determinada roupa ficara bem
nela, como determinada cor lhe acentuava os olhos e de como seu cabelo que ia até a cintura, exatamente como ele gostava, estavam brilhantes.
    Até o perfume que usava, sem jamais trocar de fragrância, era com a intenção de que onde quer que ele estivesse, se sentisse aquele cheiro, se lembraria dela.
    No entanto, ela saía. Ia ao cinema, ao teatro, às danceterias. Tinha uma legião de amigos pois sempre estava de bom humor. Nunca perdia a oportunidade de ir
à praia ou fazer qualquer coisa que a divertisse, desde que não a impedisse de poder ver o seu objeto de desejo por alguns minutos. E era por essa razão que nunca
se ausentava do Rio de Janeiro.  Tinha que vê-lo. Pelo menos u uma ou duas vezes por semana.
    E era assim que vivia a sua vida. Pensando em Felipe Mancini, respirando Felipe Mancini, amando Felipe Mamcini. Não se preocupava com a opinião que algumas pessoas
tinham a respeito da sua obsessão por ele. Ela o amava e era isso o que lhe importava. Nem mesmo o fato dele não se dar conta da existência dela lhe importava muito.
Ela sabia que um dia ele iria amá-la, tanto quanto ela o amava há esses anos todos.
    Estar apaixonada por ele e não ser correspondida não era razão para viver infeliz,
arrastando uma carga invisível de dor, angústias e lamentações. Destestava a autocomiseração.
Não tinha paciência para ficar sentindo pena de si mesma e chorando no ouvido de suas amigas.
Era uma garota normal e feliz que amava um homem mais velho e que um dia iria se apaixonar
por ela. Era tão simples que não conseguia compreender por que as pessoas não entendiam algo
tão simples.
    - Pelo amor de Deus, filha, pare com esse amor doentio! Isso não pode fazer bem a ninguém! - Dizia sua mãe, quase em desespero ao vê-la escrevendo mais uma cartinha
e ficando em dúvida se mandava ou não flores para ele naquele dia.
    - Mãe! - Suplicou ela. - Que mal eu estou fazendo a ele ou a você?
Eu apenas o amo. Não estou prejudicando a ninguém!
    - Está prejudicando a você, minha filha!
    - Não estou não. Sou tão felizz por amá-lo!
    - Como pode ser feliz amando uma pessoa que não lhe dá a menor confiança?
    - Um dia ele vai me notar e vai se apaixonar por mim.
    - Vai ficar velhinha acreditando nisso. Quando perceber, a vida já terá passado e você terá perdido seu tempo.
    - Por favor, mãe, respeite a minha escolha. Escolhi amar a um homem que não me ama, sei disso.
Talvez eu esteja me escondendo atrás desse amor para não ter que
enfrentar um relacionammento de verdade... Pode até ser... Não é isso que você vive me dizendo? Mas é a minha escolha.  Se eu tivesse me relacionando com um mal
elemento, você deveria ficar preocupada, mas não estoou envolvida com nenhum homem perigoso ou coisas do gênero. Apenas amo um homem que não me ama!
    - Apenas... Apenas... Acha pouco perder um tempo tão longo amando um homem que não lhe quer?
    - Você não perdeu um tempo muito maior amando o papai?
    Dayse sabia que pegara pesado, mas queria que sua mãe a compreendesse ou mesmo, que a deixasse em paz. Tinha consciência que magoara. Seu pai fora um grosso,
estúpido e violento. Agredira a ela e a sua mãe fisicamente por tantas vezes que tiveram que fugir dele. E foi exatamente nessa época que conhecera o seu professor.
    - Os homens não gostam que as mulheres os persigam. E você não dá uma folga para esse tal
Felipe Mancini.
    - Eu acredito em mim. Além disso, não existe nenhuma regra que diga que os homens gostam
disso ou faquilo. Uns até dizem que detestam mulheres que lhes pegam no pé. Se for o caso de
Felipe... Nas acho que não é...
    - Como pode saber?
    - Por instinto. quando um homem não quer uma mulher ele lhe corta todas as
oportunidades...
    E ele não lhe cortou. Parece-me que perseguir um homem durante oito anos e não ser
correspondida deixa isso bastante claro.
    - Antes eu era apenas uma criança.
    - E mesmo depoiss da sua maioridade, ele continuou afastado.
    - Sei disso. Mas ele nunca me evitou de um forma definitoiva, entende?
    - Não! Não entendo! O que entendo é que ele nunca lhe deu esperanças. Tanto é verdade que

há oito anos você se acaba por ele. Não percebe que o tempo está passando e ele daqui a pouco
arruma uma nova esposa?
    - E, dessa vez a esposa dele seri eu.
    - Deus Meu! Como você é ingênua! - A mãe sofria com aquela teimosia.  Por que sua filha
era incapaz de enxergar a realidade que se apresentava a sua frente? Estava mais do que claro
que aquele homem não a queria! Por que ela era tão cega? Que raio de obsessão era aquela?
Aquilo não podia ser nada bom! Nenhuma mulher normal ficaria tantos anos se consumindo por um
amor que não iria a lugar algum! Como desejava que sua filha fosse capaz de enxergar a
verdade!
    Ainda se lembrava do primeiro dia que tivera aulas com ele e chegara em casa gritando para sua mãe que encontrara o homem com quem iria se casar e ter filhos.
    - Quem é esse garoto e quantos anos tem essa maravilha? - Sua mãe perguntara sorridente.
    - É... É meu professor de Geografia. Tem... Sei lá... Minhas colegas dizem que ele é velho.
    De tanto falar com sua mãe sobre seu professor, ela resolvera ir conhecê-lo pessoalmente. Poderia ser um aproveitador. Talvez até estivesse incentivando a sua
filha, sabe-se lá com que tipo de intenção.
    E tanto sua mãe falara e falara na sua cabeça, que ela quase nem dormira naquela noite. Dona Beth queria conhecer Felipe Mancini, talvez até tomar satisfações,
expulsá-lo da escola, acusá-lo de pedofilia ou coisa parecida. Ficara apavorada, naquele dia, há oito anos, com a fúria que sua mãe demonstrara contra o seu amado
e querido professor.
    Entretanto, ao ver os dois conversando amavelmente, sentiu ciúmes de sua própria mãe. Pareciam ter a idade certa para namorarem. Pareciam feitos um para o outro
e ela passaria tranquilamente como a filha dos dois.
    Quis morrer naquele dia. Era realmente uma criança. Talvez fosse por isso que ele não respondia as suas cartinhas e nem ao menos a olhava com qualquer tipo de
interesse. Ele poderia ser acusado de qualquer coisa que poderia acabar colocando-o na prisão.
    Então, tomou a decisão de que esperaria fazer dezoito anos para forçá-lo a se interessar por ela. Não demorou muito para descobrir que ninguém poderia ser forçado
a gostar de alguém. Como era complicado crescer! Era tão pouco o que ela queria da vida, se foosse comparar com suas amigas que queriam ficar ricas, encontrar um
otário que as bancasse. Ela só queria Felipe Mancini. Ele era o seu tesouro, a sua riqueza, a sua felicidade.  E isso era tão difícil!
    E foi pensando na vontade que tinha de ter aquele homem em seus braços, que ela e os demais aprovados no concurso daquela universidade para o recém criado colégio
de aplicação se encaminhavam para o auditório, a fim de receber as boas vindas do reitor e começarem a iniciar suas atividades.
    Na verdade, nem queria lecionar para adolescentes. Quisera apenas se inscrever para a
Pré escola. Mas precisava mostrar a ele que se interessava pelas mesmas coisas que ele. Assim,
aproveitara a oportunidade e se inscrevera também para o Fundamental e Médio. Contudo, temia
entrar em uma classe e dar de cara com um bando de adolescente que não a respeitariam por
causa de sua pouca idade. Mas precisava provar a Felipe e a si mesma de que era capaz.
    E, quando ela o viu a sua frente, falando a todos que ali se encontravam, não foi capaz de ver ou ouvir nada além das fortes e descompassadas batidas de seu
coração.
Era como se ali só estivessem ele e ela. Todos haviam desaparecido.
    E mesmo depois dele ter saído dali, não conseguia pensar em mais nada a não ser no fato de que estiveram juntos na mesma sala e que respirara o mesmo ar que
ele respirara.
    Ao final daquela manhã, foi até a mesa onde ele se encostara enquanto falava com as pessoas e passara a mão no mesmo lugar onde ele antes estivera. Era
como se a energia dele ainda estivesse ali e que ao tocá-la, ela e ele estariam na mesma sintonia.
    Embora todos a vissem como uma tonta quando ela falava de seu amor por aquele homem, ela sofria. Demonstrava alegria e despreocupação para todos, mas aquela
paixão lhe corroía a alma. Há oito anos sofria por ele. Por que achavam que aquele amor era uma bobagem? Só por que o amara na adolescência, seus sentimentos não
tinham valor? E agora que era adulta, que trabalhava, que pagava as suas contas, seu amor por Felipe Mancini era alvo de piadinhas por que era visto como uma paixão
adolescente ou, como diziam alguns, um amor não correspondido não devia ser levado a sério.
    Estava tão invadida de amor pelo fato de ter estado no auditório no mesmo instante em que Felipe que nem reparou no carro que parou ao seu lado enquanto saía
do colégio de aplicação, enquanto se dirigia ao restaurante onde sua mãe a esperava para almoçar.
    - Para onde está indo? - Perguntoou-lhe Felipe de dentro do carro.
    Ela teve um acesso de tosse e quase morreu engasgada.
    Ele saiu do carro e apressou-se para fazê-la sentar-se no banco do carona. Ela entrou quase desfalecendo por causa da tosse e por que nunca havia tocado ou sido
tocada por ele.  Tremia da cabeça aos pés e se ele não a sentasse no carro como se ela fosse uma garotinha de três anos, cairia sem forças no chão.
    Ele entrou no carro e prendeu o cinto de segurança dela e depoois o dele. Saiu rápido dali.
    Ela, contudo, não parava de tossir. Esquecera do que era necessário fazer para respirar.
Estava ao lado dele, no carro dele, sentindo o perfume dele, ouvindo a respiração dele. Ia
morrer! Ninguém poderia sobreviver aquelas sensações. eram muito fortes. A tremedeira não
parava. E, agora, olhava-o escancaradamente o rosto. Não conseguia parar de olhá-lo. Nunca
estivera tão próxima a ele. Ia morrer! Deus! Ia morrer ali ao lado do ser a quem mais amava
no mundo! Ia morrer de tanta felicidade!
    "Idiota! Pare com essa tosse! O que esse homem maravilhoso vai pensar?" Com muito esforço mental, acalmou sua garganta. Percebeu que ele a olhava de um modo
sério e daria tudo para saber o que ele estava pensando. Estaria ele preocupado com a sua tosse? Estaria envergonhado após vê-la convulsionada por aquele ataque
que a faria cuspir os pulmões?
    Dayse não conseguiu se lembrar que sua mãe a esperava no restaurante.  Para dizer a verdade, nem se lembrava do que era uma mãe. Estava extasiada. Olhava para
ele com adoração.
    Logo chegaram a um pequeno restaurante. Era bastante próximo ao local de trabalho, pois Felipe teria que retornar rapidamente para a reitoria. Havia muitas coisas
para resolver e ainda teria que dar as boas vindas ao segundo grupo de aprovados. Não que precisasse fazer aquilo, mas queria saborear a inauguração daquela escola.
Queria estar ciente dos mínimos detalhes de seu funcionamento. Não que aquilo fosse uma
tarefa sua. Para bem da verdade, o grupo de diretores que iria administrar
aquela unidade de ensino, há muito fora escolhido pelo conselho da universidade. Mais tarde, os docentes elaborariam seu próprio estatuto e a escola funcionaria
por conta própria. Porém, naquele dia, queria saborear o gosto daquela vitória, idealizada pelo primeiro reitor e construída em tão curto prazo desde que assumira
aquela função, que, embora carregada de problemas, lhe dava imenso prazer. Devia aquilo ao seu pai!
    Só estava um pouco aborrecido por que, o seu irmão, Lucas Mancini, não poderia estar
presente naquele momento. Mas ele viria em breve e assumiria a direção daquele novo
empreendimento.
    Ao abrir a porta do carro para que Dayse descesse, ela quase não sentia as próprias pernas. Ziguezagueoou como se tivesse embriagada.  Tentava alinhar seus pensamentos,
mas era impossível. Desaprendera tudo o que levara vinte e dois anos para aprender.
    - Você está se sentindo bem? - Ele perguntoou preocupado. Ela parecia não estar sentindo bem e ele já se arrependera de tê-la convidado para almoçar.
    - Hã? Ah! Estou bem! Estou muito bem! - Disse ela quase não conseguindo suportar a felicidade que sentia.
    "Talvez ela nem tenha fome! Acho que eu a convidei num dia ruim. Mas não tem importância. Não posso demorar mesmo!" Pensava ele enquanto a observava, preocupado.
Ela estava muito ausente, como se fizesse uma força sobrehumana para ficar ali, no planeta terra.
    - Tem certeza que está bem?
    - Professor Felipe, o senhor não tem noção de como estou bem! Quase poderia voar por todo o Rio de Janeiro de tão bem e leve que estou.  Aliás, acho que estou
voando. O senhor pode verificar se meus pés estão encostando no chão? - Ela estava tão feliz,
tão repleta de felicidade que se sentia enjoada.
    "Realmente, ela não bate bem. Recebi cartinhas infantis de amor dessa garota por oito anos, e, quando crio coragem para convidá-la para almoçar, ela age como
se usasse drogas!" E, de repente preocupou-se por saber que uma possível viciada trabalharia na escola que ele brigara tanto para construir.
    Entraram no restaurante, sentaram-se e fizeram seus pedidos.  Curiosamente, Dayse sentia uma fome avassaladora. Quase não conversou com Felipe, pois estava mais
interessada em fazer sumir toda a comida que colocara em seu prato. Infelizmente, a sua ansiedade fez com que comesse rápido demais e, em pouquíssimo tempo, não
tinha mais nada a fazer, a não ser, esperar que Felipe terminasse sua refeição. Só então conseguiu acalmar-se e voltar a ser ela mesma: a garota que o amava abertamente
e que não se sentia culpada por aquele sentimento, razão do deboche de todos aqueles a quem ela conhecia.
    - Desculpe-me, professor...
    Ele levantou os olhos até ela. Estava arrependido por tê-la convidado. Ela se mostrara uma decepção como ser humano. Não tinha assunto, não lhe demonstrava nenhum
interesse. Começara a duvidar se fora ela realmente que escrevera as infalíveis cartinhas de todas as sextas-feiras. Ela não aparentava nenhum interesse por ele.
Apenas pelo prato de comida, ao qual ela atacara como um inimigo a ser derrotado, sendo que, um pouco antes, parecia ter ingerido alguma bebida alcoólica ou algum
tipo de droga.
    - Hã? Desculpar o que?
    - Eu estava saindo no portão do colégio, muito distraída. Nunca, em meus mais loucos sonhos, poderia imaginar que o senhor fosse me convidar para alguma coisa.
Pensei que ia passar mal. Fiz um esfoço enorme para não desmaiar em seu carro.
    Ele se surpreendera com a naturalidade com que ela falava. De qualquer forma, suspirara um pouco mais tranquilo. Mesmo sendo tão direta, sabia agora que o comportamento
anormal fora ditado pela emoção.  Mesmo assim, ele ficara sem palavras diante da objetividade dela.
    - Sabe que sou louca pelo senhor há tanto tempo que... Fiquei emocionada demais. Como não sabia o que dizer e nem como agir, resolvi atacar a minha refeição.
    - Percebi... - Falou ele sorrindo. - Pensei que você ia se esconder dentro do prato. - Ele começava a se descontrair.
    - O senhor pode compreender bem essas coisas que acontecem. Deve receber milhares de cartinhas iguais as minhas, todos os dias.
    Ele a estudou com algum interesse. Não sabia muito bem com quem estava lidando. Ela poderia parecer uma tonta, e não ser.
    - De fato, recebi muitas cartinhas. Acho que isso é muito normal na vida de um professor. Agora, no entanto, não há mais cartinhas. - Ele parou de repente.
Agora, realmente, não recebia mais as sonhadoras cartinhas das adolescentes do ginásio. As cantadas tornaram-se mais diretas. Quase como o que ela tentava fazer
agora. Sendo direta demais, coisas que sempre o deixavam em guarda quando as mulheres passavam a caçá-lo.
    - Já não recebe cartinhas, não era isso o que ia dizer? As mulheres que estão a sua volta são mais diretas, não é? Eu tenho muita concorrência?
    Foi a vez dele se engasgar e tossir.
    - Isso é contagioso! - Ele riu após se acalmar.
    - Um dia você vai-me ver como mulher?
    Ele a olhou intensamente.
    - Quem sabe... - Respondeu por fim.
    - Amo o senhor demais!
    - Você vai-me deixar encabulado.
    - Perto do senhor eu não sei nada da vida. Como poderia encabular o senhor?
    - As mulheres atiradas me deixam sem graça.
    - Não sou atirada. Amo o senhor há oito anos. Estou-me guardando para o senhor desde então. Não acha que mereço uma chance?
    Ele tornou a olhar para ela com aquele jeito intenso, de quem procura ver o que se esconde por trás das palavras.
    - Talvez... A gente saia um dia desses... Faloou sem muita convicção.
    Na verdade, o amor que ela dizia sentir por ele o incomodava. E ele nem sabia se aqueles sentimentos confessados por longos oito anos em cartinhas perfumadas
e cheia de florzinhas, por ursinhos que também tinham o mesmo cheiro das cartas e, que por acaso, era o mesmo cheiro dela.
    Conhecia aquele perfume de longe. Nunca o sentira em nenhuma outra mulher. Não sabia qual perfume que ela usava, mas sabia que em todo o Rio de Janeiro, somente
ela tinha aquele cheiro tão agradável aos sentidos dele.
    Ele admirava a sua beleza. Tinha cabelos longos e castanhos claros, exatamente  como ele gostava, na altura da cintura. Belíssimos olhos, também castanhos, cor
de mel, grandes e sonhadores, emoldurados por longos cílios. Seus lábios eram carnudos. Seus seios grandes. Era uma delícia de mulher. Queria
prová-la. Queria saber se ela era capaz de causar nele as velhas sensações que nenhuma outra mulher, depois que Vera o magoara, conseguia acordar nele. Estava carente
e precisando dos braços dela em redor de seu corpo. Mas não confiava nela. Era muito bonita para perder tanto tempo atrás dele.  Aquele quebra cabeças não fechava.
Faltava alguma peça. Por que uma mulher linda e maravilhosa se guardava para ele?
    Ela o admirava descaradamente. Olhava-o de perto como nunca tinha estado antes. Observava todos os mínimos detalhes para sonhar com eles mais tarde. Um sinal,
uma invisível mancha na pele... Tudo estava sendo excrutinado por ela. As ranhuras de matizes douradas que ela via na iris, no interior de seus olhos adorados. As
sobracelhas espessas que lhe davam um ar severo e misterioso. A boca carnuda e suculenta que ela queria beijar. Deus! Como amava aquele homem!
    E, quando aqueles olhos dourados e tristes pousavam nos seus, ela quase enlouquecia de desejo. Queria beijá-lo ali. queria fazer amor com ele ali mesmo, na mesa
do restaurante.
    Ele tirara o óculos na hora do almoço e ela nunca o tinha visto sem óculos. Olhava os seus cabelos compridos, quase pretos, presos por um rabo de cavalo. Via
o esforço que os cachos faziam para manterem-se presos ali.  Olhava aquela boca, que ela queria beijar, linda e sensual. As mãos grandes. Queria aquelas mãos percorrendo
o seu corpo. Não se cansava de olhá-lo. Não se cansava de desejá-lo. Como seria ter ele dentro dela?  Aquela expectativa ia matá-la.
    Eles se olhavam e se observavam. Estavam fazendo amor com os olhos e Felipe estava terrivelmente excitado. A vontade que tinha era a de sair dali e se dirigir
a um motel e fazer amor com aquela garota até que ela implorasse para que ele parasse. Ou até que ele morresse de cansaço.
    E eles ficaram um bom tempo se conhecendo no mais absoluto silêncio.  Eram olhos de um,
nos olhos e na boca do outro. E no meio disso, um imenso desejo de fazer amor, que
volta e meia os sacudia num orgasmo imaginário. Ela estremecia de desejo e paixão. Ele estremecia de prazer por imaginar-se dentro dela. Era sexo explícito em pensamento.
    O sexo dele, duro como aço ameaçava explodir ali mesmo, sem que nada o tocasse. Apenas a
imaginação de que ela o tocava, segurava seu membro duro e pulsante.
    Ela sentia um ardor entre as coxas. Seu sexo pulsava quente e úmido. Havia nela uma
necessidade desesperada de que ele a tomasse e a possuísse sem pena, selvagemente,
furiosamente. Somente a fúria acalmaria seus sentidos. Não sabia, até aquele momento, como
era sentir desejo sexual. Em suas fantasias, sua imaginação nunca tinham ido tão
longe, embora sempre se acariciasse intimamente quando estava sozinha e
sonhava com o dia em que ele a possuiria de verdade.
    Entretanto, agora, parecia real. Ou quase.
    Ela abriu os lábios para ele e, de onde estava, do outro lado da mesa, ele sentiu que a
beijava, que invadia aquela boca indecente com sua língua esfomeada.
    Por baixo da mesa, suas pernas se tocaram.
    Ambos estremeceram. Sentiram-se atingidos por uma descarga elétrica.
    Ela,instintivamente abriu as pernas e sentia como se ele a estivesse invadindo.
    E ele sentia que a invadia, que a penetrava, que a possuía freneticamente.
    Embora, por baixo da mesa nada de mais estivesse acontecendo,, a
cabeça dela dava voltas e mais voltas deixando-a com a sensação de que
estava embriagada. Bebera demais?
    Era tudo imaginação!
    Mas ela tinha vontade de se escancarar completamente e enfiar as mãos dentro de sua
calcinha e se liberar daquela tortura.
    Felipe imaginou que a invadia em todas as posições que já lera no Kama sutra. Viu-se sobre ela,
viu-a sobre ele...
    Só não abriu o zíper de sua calça e pôs o seu membro para fora a fim de acariciá-lo, nem
sabia por que. Já se esquecera que havia pessoas a sua volta. Nada mais via além de Dayse e o
desejo nos olhos dela.
    - "OH! Tenho que ir embora! Tenho que sair daqui!
    O ar condicionado do restaurante não conseguia evitar o suor que lhe escorria pela testa.
    E o pior era parecer que só havia os dois ali.
    E ela não parava de olhar para os olhos dele ou para a sua boca. Lia o desejo
dela em seus olhos.
    "Céu Santo!" ele ia gozar ali!
    Com a testa molhada de suor, pediu a conta e esforçou-se para se concentrar nas
atividades que teria por toda a tarde. Era um homem civilizado. Não podia agir como um homem
das cavernas que se deixava levar pelos instintos.
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         Romances no Rio 5 - As cartas de amor - romantico e sensual


                           

                

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