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domingo, 17 de julho de 2011

Série Os Quatro elementos 4 - O homem do fogo


rob lowe
 OS QUATRO ELEMENTOS
 4 - O homem do fogo - Juliano Dellatorre

 Resumo: Juliano é um ariano insuportável, arrogante e odiado por quase todos que o rodeiam. Angélica é uma mulher tranquila que adora ajudar outras pessoas.  Entretanto, Juliano detesta o modo amável com que Angélica trata aos outros, e não quer nem ao menos chegar perto dela. Para complicar, acha-a uma mulher feia,  velha e sem graça. Seu problema é que precisa dela, caso contrário, perderá a guarda de seus filhos.

    Signos do Elemento Fogo: Áries, Leão e Sagitário

            Os signos de Áries, Leão e Sagitário pertencem ao elemento Fogo. Esse é o elemento do movimento e da iniciativa. Os nativos dos signos de fogo são passionais,  entusiasmados e otimistas. Quente e extrovertido, o elemento fogo traz a imprevisibilidade e a impaciência. Conquistadores por excelência, não gostam de cultivar  o passado e suas apostas estão sempre voltadas para o futuro. Impulsivos, inflamáveis, coléricos, as vezes, se queimam em seu próprio calor. Fogo é a vontade, o desejo, a criatividade e o movimento necessário para a criação  e a transformação.  É paixão, calor e energia. Reage explosivamente com o elemento ar e, na verdade, na maioria dos casos, não existe sem ele. Terra e água são  opostos ao fogo, pois nenhum deles é capaz de mantê-lo e ambos têm capacidade de extinguí-lo.

                                                              UM HOMEM DO FOGO!
                                                                           CAPITULO 1


            Angélica Meneghel entrou na igreja. Estava de braço dado com seu filho Bruno e caminhava para o altar, onde Juliano Delatorre, aquele homem antipático, insuportavelmente  grosso, arrogante, estúpido a aguardava com cara de pouco caso.
            Lá estava o asno! Não podia negar que era sexy, atraente, bonito mesmo! Uma mistura de Du Moscovis com Willian Bonner. Era lindo! De parar o trânsito, como  diriam suas filhas. Mas, de que adiantava tanta beleza naquele quadrúpede? Era o mesmo que dar pérolas aos porcos! Se pudesse, cuspiria na cara dele, assim que  chegasse ao altar. Mas ela não era assim. Era uma mulher sensata, recatada, tranquila, admirada por sua calma e por sempre, fazer a coisa certa!
            Não conseguia entender o que fazia ali por mais que tentasse. Estava se casando com aquele troglodita machista e sem um pingo de sentimento por qualquer outro  ser humano a não ser ele mesmo.
            Sabia que estava cometendo o maior erro de sua vida, mas não costumava arrepender-se das coisas que fazia. Mesmo por que, tudo o que fizera na vida, acabara  beneficiando a várias pessoas inclusive a ela própria. E, de certa forma, era agora esse o caso, mesmo que, a princípio, não desse para perceber, fosse lá onde  fosse, como ela poderia ser beneficiada, de alguma forma, por esse casamento desastroso.
            Em todas as vezes que ajudara alguém, saíra ganhando. Nunca pensara em beneficiar-se das situações que lhe eram apresentadas. Quando fora violada, jamais pensara que iria acabar se tornando a esposa de Afonso, aquele homem que fora  seu melhor amigo, um pai exemplar e tão bom marido.
            E nem imaginara que a vida a presentearia com aquela filha maravilhosa, que só lhe dera alegrias. Aliás, todos os seus filhos só haviam lhe dado alegrias. Bruno,  seu filho mais velho, médico dedicado, um ser humano da melhor qualidade. Carine, sua outra filha, também médica, de gênio forte, solidária, amante da natureza.  Joyce, a tímida esotérica e pintora dos mais belos quadros, sensível, preocupada com o bem estar da família e Sabrina, a única que nascera de seu ventre, e que  administrava a loja que ela criara como a menina prodígio das finanças, segundo os meios de comunicação
            Amava seus filhos. Amava seus netos. E, como nascera para amar, aprendera a amar aquele casalzinho de Gêmeos, tão largados na vida, tão abandonados a própria  sorte.
            Os filhos do troglodita!
            Michelle e Matheus. Apaixonara-se por aquelas duas crianças que só tinham oito anos. E, que já estavam tão desamparadas na vida. Tão tristonhos, tão aparentemente  infelizes. "Pobrezinhos!"
            Quando ela havia arriscado a vida para salvar seu filho Bruno da morte certa, quando enfrentara a mãe drogada de Joyce e mesmo quando acolhera a pequena Carine,  trazida pelas mãos de Gabriel, jamais pensara em qualquer benefício em troca do amor que dedicara aquelas crianças rejeitadas.  Logo ela, que também fora uma criança  que sentira na pele, na carne e na alma o terror da rejeição.
            Todos os seus filhos tinham muito a ver com o que ela passara. Todos haviam sido rejeitados pelos pais. Exatamente como ela fora um dia.
            E até mesmo, quando a história de sua vida se esticava aos genros, tinha em Renato Valente, o marido de sua filha Sabrina, o mesmo enredo que cercava a vida  daqueles que adotara. Ela não rejeitara sua filha. Mas tanto o primeiro marido de Sabrina quanto o segundo haviam sido rejeitados ao nascer.
            Então, acreditara que era esse o seu destino. De estar sempre cercada por aqueles que ninguém mais queria e que ela, com o seu amor incondicional, ensinara-os  a se sentirem plenos e confiantes, com a certeza de que ela os amava e os queria.
            Não podia se considerar uma vítima do destino. Não se via assim. Ao fim, acabara se tornando uma empresária muito bem sucedida e tinha quatro filhos maravilhosos  e sete lindos e adorados netos.
            Era bastante jovem ainda. Muitas mulheres de sua idade aproveitavam a vida. Namoravam, curtiam, se divertiam a valer. Ainda não tinha quarenta anos. tudo bem que já era vovó. Entretanto, começara muito cedo. Fora mãe muito jovem e, para  compensar, suas filhas Carine e Sabrina também haviam começado muito cedo. Tanto que ela se tornara avó aos trinta anos!
            Todavia, em sua família, nenhum dos membros era chegado a diversões fora do lar. Eles não tinham o hábito de saírem para dançar ou procurar qualquer tipo de coisa que não fosse estarem juntos.
             Antes, quando seus filhos estavam em início de carreira, tinham o hábito de jantarem com a mãe todas as quintas feiras. E almoçarem juntos em um dos restaurantes da família, pelo menos três vezes por semana. Agora, que haviam encontrado, cada um deles, o seu ponto de equilíbrio, iam quase todos os dias em  sua casa. Todos gostavam muito daquela proximidade, daquela gostosa familiaridade, daquele imenso amor que os uniam aos seus cônjuges e aos demais irmãos, fazendo  com que aqueles laços fraternais, que nem eram de sangue, se estreitassem cada vez mais.
            Realmente eram pessoas que se amavam e que gostavam muito de serem tão próximas.
            E, ao ver que seus filhos tinham tanto amor entre si, que gostavam tanto de estarem com ela, que aquela chama de amor, confiança e respeito crescera tanto que  não precisavam procurar fora do seio familiar o que entre eles havia de sobra, por que ela, logo ela, se importaria com o fato de nunca se divertir como as mulheres  solteiras de sua idade? Ela não era desse tipo. Não era do tipo que saía, dançava, bebia, paquerava. Não tinha nenhuma razão para ser assim. Sua vida era de pura  felicidade. Seu maior prazer era saber que seus filhos, que incluíam os genros, e seus netos estavam bem. O que mais poderia esperar da vida? Um grande amor? Isso  era coisa para jovens! Se ela não encontrara o amor na juventude, por que cargas d'água o encontraria agora?
            Não se importava com isso. Não tinha nenhuma pretensão em ser vista como uma mulher que mexe com a cabeça dos homens. Nunca se apaixonara. Nunca tivera desejo  de nenhum tipo. Sua vida fora a de dedicar-se a própria filha e as crianças que adotara. Se chegara a se casar, foi para poder manter a família. Não era romântica,  não tinha ilusões, não tinha sonhos. Nem desejos! Afonso, seu primeiro marido, lhe ensinara a não ser escrava dos desejos. Dizia que toda mulher que se deixava  levar pelo desejo, pela ânsia de prazer era uma suja, pecadora, mundana. E ela não era assim. Tudo o que aprendera sobre sexo havia sido com o seu marido. Ele a  ensinara a não dar ouvidos aos meios de comunicação, pois para Afonso, as revistas, as novelas, os filmes, só queriam ensinar as mulheres a se tornarem prostitutas.
            Então, mesmo depois que ficara viúva, aprendera a não ser uma mulher que se deixava levar facilmente. Era dona de seu juízo, de seu corpo e o comandava do modo  como fora ensinada por Afonso.
            Porém, agora, dirigia-se para o altar onde aquele infame vaidoso, insuportável e irritadiço estúpido se encontrava. Como poderiam viver juntos? Ele era deplorável!  E ela o detestava acima de qualquer coisa!
            Olhando para os lados da pequena igreja, ela podia observar a apreensão no rosto dos filhos e dos genros. Até mesmo o imperturbável Renato Valente, amigo pessoal  do idiota Juliano Dellatorre, parecia preocupado. Ninguém quisera aquele casamento. Era a coisa mais idiota que ela estava fazendo em sua vida!
            Seria mesmo?
            Com toda a certeza, e ela sabia muito bem disso, aquele troglodita estava muito irritado com aquele casamento que não estava em seus planos. Mas ela não se  importava. Não poderia parar para pensar no bem estar daquele egoísta. Tinha que pensar naqueles que ainda não sabiam se defender.
            E, só de olhar para ele, ela precisava buscar forças em algum lugar para não dar a volta e sair correndo daquela igreja. A cara dele não conseguia esconder  o ódio que sentia. Por mais que ele tentasse disfarçar, dava para notar como ele trincava os dentes. Com toda a certeza, sua boca guardava um monte de insultos  contra ela.
            Era uma pena! Ele realmente era um homem bonito e atraente. Alto, musculoso, muito sexy... Não era a toa que as mulheres viviam correndo atrás dele. E não era  a toa que ele, que não valia nada, adorava ser o objeto de toda aquela devoção feminina.
            Enquanto caminhava a passos lentos na direção daquele ego centrado arrogante, Angélica reparava nos traços daquele rosto perfeito. Juliano Dellatorre tinha cabelos e olhos tão negros quanto uma noite sem estrelas. Um queixo quadrado e orgulhoso  e uma pele morena, puro bronze!
            Tinha um sorriso largo, amplo, como se estivesse de bem com a vida, na maioria do tempo. Entretanto, Angélica suspeitava que aqueles dentes brancos, que se  mostravam com tanta facilidade, na verdade não passava de um deboche, um jeito irônico de se sentir sempre superior aos demais mortais.
            Todavia, naquele momento, enquanto ela caminhava em sua direção, duvidava que ele pudesse estar achando graça de alguma coisa. Sabia que ele rejeitara a idéia  de casar-se com ela, como aliás, rejeitaria tal idéia mesmo que o casamento fosse com a mais bela e sensual das mulheres.
            E o que ela era então? Não era bela e nem sexy. Porém, servia aos planos dele como uma luva. Que idiota mais aceitaria aquela proposta indecente de casamento?
            De certa forma, sentia-se vingada. Ele não tivera outra saída, não conseguira encontrar outra solução para o seu problema.
            Ele estava rígido, a postura ereta gritando em protesto que não queria estar ali. Bem, ela não ligaria para isso. Ela também não queria. Era uma mulher de trinta e nove anos que não vira alternativa para aquela situação. O que poderia ela fazer?  Fingir que nada acontecia? Bem, se aquele egoísta estava acostumado a fazer o que queria, a não se preocupar com as consequências de seus atos, caberia a ela colocá-lo  em seu devido lugar. Ele aprenderia, de uma forma ou de outra, a respeitar as convenções, a ser uma pessoa digna de respeito!
            De seu lugar de noivo, diante do altar, Juliano Dellatorre se obrigava a manter uma postura tranquila. Sabia que a serenidade não era o seu forte, mas precisava  parecer algo do tipo sossegado.
            Na verdade, queria poder mandar aquela mulher que caminhava em sua direção para o quinto dos infernos! Detestava aquela "Madre Tereza da Costa Verde!" Aquele  olhar de mulher compreensiva, aquela voz adocicada, aquele modo inabalável... Ah! Como gostaria de abaixar aquele topete!
            Era quase inacreditável que estivesse se casando com aquela megerinha de araque.! E a boboca quisera se casar na igreja, com direito a vestido de noiva, buquê  de flores e tudo o mais! Era simplesmente ridículo! Aquela mulher não se enxergava? Não percebia que estava dando um vexame? E, para piorar, exigira que ele usasse  um smoking! Era o cúmulo! Logo ele que tinha que rezar um terço para colocar um terno e uma gravata. Odiava gravatas! Como era seu próprio patrão, usava jeans e camisetas o tempo toso. Só  se enfiava num terno quando tinha uma reunião importante com algum executivo que não o conhecia bem.
            Felizmente, concordara com poucos convidados. Ele quisera um casamento simples, num cartório, sem ninguém a vista, nem mesmo a família. A teimosa batera o pé.  Disse que seu casamento seria um dia especial e ela gostaria de se lembrar com carinho, daquele dia! Para Juliano era simplesmente um dia horrendo! Estava se casando! O que já não era um fato agradável. E com aquele estrupício disfarçado de mulher! O que poderia  ser pior? O que ela poderia querer lembrar-se daquele dia horroroso? Estavam se casando! E se odiavam!
            Se estivessem se casando como ele queria, de uma forma rápida e indolor, ele nem teria aquela desagradável sensação de que estava fazendo uma besteira. Era  chegar no cartório, assinar os papéis e sair. De preferência, ele para o Pólo Norte e ela para o Pólo Sul!
            Sair... Sair da igreja...
            "Droga"! Sair para onde? Para a casa daquela mulher! Teria que morar sob o mesmo teto! Teria que conviver com ela! Será que valia a pena aquele sacrifício todo?
            E, desde quando fora o tipo de pessoa que sacrificava a própria vida pelo bem dos outros? Deveria estar drogado, deveria estar hipnotizado ou qualquer coisa  parecida. E, o que mais o apavorava era ter consciência do que estava fazendo. Tivera trinta dias para pensar, repensar e voltar atrás. Poderia ter dito não, ido  embora do Brasil, se escondido. Enquanto a papelada para o casamento corria, tivera a oportunidade de desaparecer, chutar o balde e deixar que as coisas acontecessem  como a maioria acreditava ser o certo.
            Mas, não sabia de onde surgira aquele desejo de lutar pelo que ele considerava seu, mesmo que, aparentemente, não desse muita importância. Mesmo porque, chutar  o balde seria a atitude que todos esperavam dele. Afinal, sempre fora considerado o mais desajuizado dos homens, inconsequente e egoísta ao extremo, voltado para  o próprio umbigo.
            E todos sempre tiveram razão. Então, por que aquela mudança drástica na sua maneira de ser? O que ganharia com aquela atitude além de um profundo e gigantesco  aborrecimento? Por que não agir como sempre agira, com um egoísmo acima de qualquer suspeita? Não era assim? Todos não sabiam que ele era assim? Todos, inclusive  o seu pai, não lhe diziam que só pensava em si mesmo, que só fazia o que lhe parecia conveniente e que tudo sempre tinha que se converter para o seu próprio benefício?  Agora estava em dúvida. Por que se casava com aquela mulher desagradável? Que benefício extrairia daquele desastre? Estava sendo egoísta mais uma vez? Estaria realmente  fazendo a coisa certa ou estaria escondendo até de si mesmo os seus mais sombrios desejos de vingança? Estranhava a si mesmo! Não era do tipo de pessoa que se sacrifica pelo bem dos outros. Deveria haver em seu íntimo, alguma razão tão escondida da qual nem ele mesmo tinha conhecimento. Havia, no fundo de sua alma, algo que ele desconhecia e que o  levara a tomar aquela atitude. Certamente não estava agindo com altruísmo. Era egoísta demais para isso. Entretanto, nem ele mesmo sabia ao certo o que o motivara  a casar-se para ajudar alguém que não fosse a si mesmo! Tudo era muito esquisito!
            Estava se casando com uma mulher detestável, que posava de boazinha, amável e compreensiva, tudo o que ele via nas pessoas como fingimento e hipocrisia. Não  gostava de pessoas que se fingiam de bondosas. Não acreditava em bondade, lealdade, sinceridade, amor desinteressado. Não sabia por que se deixara levar pelos conselhos  de seu advogado que o aconselhara a casar-se com uma pessoa de moral ilibada, acima de qualquer suspeita. 
            E que ser humano nesse mundo de Deus se encaixava nessa descrição de seu advogado a não ser a pudica, quase virginal sogra de seu único amigo Renato Valente?
            Aquela mulherzinha insuportável, com aquele jeito manso e toda aquela patética história de vida sofrida, dedicada ao bem estar alheio!
            "Que coisa mais chata"! Deus do céu!
            Nunca, em hipótese alguma, dormiria com aquela cobra em veste de cordeiro. Sim, era uma cobra! Não acreditava nela, na bondade dela, naquele jeito fingido!  Mesmo porque, ainda acreditava que ela lhe dera o golpe para que ele se casasse com ela! Fora enganado! Tinha certeza que fora estupidamente enganado! Quando percebeu, já estava ali, diante do altar, esperando aquela santinha do pau oco entrar na igreja para tornar-se  a sua esposa! Fora uma cilada! Uma cilada maquiavélica daquela miserável!
            Víbora! Isso sim, é o que ela era! Aquela mulher deveria ser a pior de todas! Se fazia de santinha para enganar os trouxas e ate ficava abobalhado de ver como  o seu amigo Renato, tão esperto com relação aos sentimentos alheios, se deixara levar por aquela fingida de uma figa!
            E o empresário Eduardo Dreyser, tão famoso por sua inflexibilidade, por sua intransigência, se deixava levar no bico por aquela mulher.
            Com relação a Gabriel Villas-Boas e ao tal César Romero, ele nem dizia nada. Eram dois babacas que se lançavam em campanhas e mais campanhas para salvar, ora  o planeta, ora vidas alheias.
            Ele não era desse tipo. Queria mais que o universo explodisse, que as pessoas se lascassem, que todos fossem para o diabo. Só queria uma coisa da vida: Diversão!  Somente isso! E esperava que aquele casamento sem pé nem cabeça não frustrasse seus planos. Afinal, estava no Rio de Janeiro. Tinha a praia de Ipanema todinha a sua disposição. Podia escolher entre loiras, ruivas, morenas, mulatas e negras, qual a mais deliciosa que esquentaria a sua cama. Uma, duas, talvez três de uma só vez! Além disso,  morava agora na Costa Verde. Eram milhares e milhares de praias com aquelas gostosas de biquíni tão pequenininho que não deixavam nada para cansar a imaginação  masculina. Era só chegar e se fartar. Como ia perder aquele desbunde todo! Era viril demais para se perder num casamento daqueles, com aquela mocréia com cara de  santa, enquanto milhares de mulheres se ofereciam a ele de bom grado e com um provocante e prometedor sorriso sensual?
            "Deus do céu!"
            A simples idéia de ter que se manter fiel aquela mulherzinha sem graça com a qual estava se casando parecia-lhe impraticável e impossível. Ele, logo ele, que  já tivera em seus braços as mais belas mulheres que pudera imaginar. Nunca, em tempo algum, ficara sozinho, a ver navios. Sempre que quisera determinada mulher,  conseguira seduzi-la. Jamais ouvira um não. Muito pelo contrário, era ele quem vivia a dizer não, a dispensar mulheres comprometidas e aquelas que ele julgava não possuir os atributos  necessários para levá-lo a loucura!

            E esse era o caso da mulher que se aproximava dele naquele momento. A mulher que se tornaria sua esposa. Ela era totalmente sem graça. E nem ao menos era jovem.  Tinha quase quarenta anos! Que graça tinha em levar uma avó para sua cama?
            Felizmente, ela não era um desperdício total. Até que era passável, agradável aos olhos. Isso, se ele parasse para observar mais atentamente, como nunca fizera  até então. Parecia que estava vendo a mocréia pela primeira vez, enquanto ela caminhava, lentamente em sua direção. É. Pensando bem, até que ela era razoável, bonitinha  mesmo! Aqueles cabelos cacheados, quase loiros, até que tinham um certo charme. E os olhos dela também eram bonitos. Eram de um castanho brilhante, cor de chá mate, e  tinha uma boca sensual e carnuda. É. Não era tão ruim assim.
            Além disso, tinha belos seios e uma bunda maravilhosa!
            Mas tinha a certeza de que não dormiria com ela. Embora o corpo da mulher fosse interessante, não tinha as curvas desejadas para fazê-lo derrapar de prazer.  Era um corpo normal. Ela não era gorda, nem magra, nem alta, nem baixa, nem feia e nem bonita. Estava na média, o que, para os padrões de Juliano Dellatorre, era muito pouco. Definitivamente, não dormiria com ela. Entretanto, teria que dormir com alguém, não teria? Era um homem normal, com seus hormônios no ponto certo. Bem, talvez um  pouquinho só além do normal. Gostava muito de mulheres e gostava muito de sexo! Muito sexo. E aquela mulherzinha sem graça jamais o satisfaria! Bastava olhar para  ela para perceber que não aguentaria dez minutos embaixo dele.
            Teria que ser cuidadoso ao pular a cerca. Não iria viver como um padre, mas ficar sem mulher estava fora de cogitação. Também não ia ficar na mão. Não era um  homem que recorreria a masturbação em pleno Rio de Janeiro quando veria desfilar a sua frente as mulheres mais belas do mundo e que viviam a frequentar as areias  do Atlântico sul!
            Nem por sonho ficaria sozinho!
            O mais difícil seria despistar seus agora genros. Até mesmo Renato Valente, seu amigo de longa data, aliás, seu único amigo, o advertira de que não toleraria  que ele fizesse a matriarca do clã Meneghel sofrer.
            E isso era coisa que um amigo dizia a outro? E Renato o conhecia bem. Sabia o quanto ele enlouquecia por uma mulher! Tudo bem que seu interesse desaparecia  por completo mal atingia o clímax. Muitas vezes ficara dias e dias fissurado numa mulher e se decepcionava logo depois. No fundo, todas eram iguais. Nenhuma conseguira  despertar nele algum interesse além daquela curiosidade momentânea. Nada durava. Tudo era efêmero demais. Bem... Talvez Suzana tivesse sido algo mais do que mero  prazer. Não a esquecera quando atingira o clímax. E foi esse o seu erro. Deveria tê-la descartado como sempre fizera com todas as outras. Agora, ainda pagava pela inconsequência de seus atos. Se não fosse por Suzana, agora estaria livre de qualquer problema. Livre como  um pássaro para poder voar em liberdade para onde quisesse. Contudo, sentia-se como um pássaro engaiolado, preso, lascado.
            Mesmo assim, se negava a prender-se a quem quer que fosse. Só se prendera a uma mulher em sua vida e se arrependera amargamente de tê-lo feito. Suzana acabara  com sua paz de espírito. Agora, nenhuma outra o faria de otário. Agora sabia que nenhuma mulher prestava. E não seria aquela sonsa com a qual estava se casando  que seria diferente. Além dela não lhe despertar o mais mínimo tesão, ainda tinha aquela carinha de santa do pau oco. Não iria deixar-se enganar pela madre Tereza da Costa Verde!  Ela  não o subjugaria!
            Quem pensasse que ele fora derrotado pelo destino, iria se assustar ao vê-lo renascer das cinzas. Logo, logo resolveria seus problemas, entraria com um pedido de divórcio e chutaria o balde em qualquer direção. Pelo menos, a idéia do divórcio  amigável havia sido cogitada e aceita. Aquela coisinha insípida também não gostaria de ficar casada com ele por muito tempo! Ainda bem!
            Nem podia imaginar um casamento para a vida toda com aquela mulher insignificante. Uma vez se casara e desejara que fosse para a vida toda. Nunca mais pensaria daquela forma. Quando uma das partes, numa relação a dois, amava, o outro sempre se  esquivava. E tinha sido isso o que acontecera com ele. E ele nem era tão jovem assim! Casara-se com Suzana quando tinha trinta e um anos. Sabia o que estava fazendo.  Pelo menos, ele acreditara nisso. E o que lhe acontecera parecia-lhe um pesadelo. Sua esposa o traíra vergonhosamente, abandonara a ele e aos filhos, não sem antes  cravar uma faca em seu coração. Aprendera. Nenhuma mulher tripudiaria mais em cima dele! Era viver para crer!
            E, com todo os diabos! O que estava fazendo ali, vendo aquela mulher idiota, dirigir-se a ele, com um vestido ridículo de noiva e um buquê nas mãos, para tornar-se a sua esposa, a senhora Juliano Dellatorre!
            Quando Angélica chegou ao altar, ele tomou-lhe a mão enquanto Bruno se afastava.
            Antes mesmo de poderem ficar de frente para o padre, Angélica viu o rancor nos olhos dele e estremeceu. Realmente ele estava muito irritado por ter que casar-se  com ela.
            - Vamos terminar logo com essa palhaçada! - Ela o ouviu dizer entre os dentes.
            Padre Bernardo arranhou a garganta. Teria o velho padre ouvido o que aquele rinoceronte disfarçado de homem dissera?
            A cerimônia acabara e todos se dirigiram para o jantar em família. Juliano Dellatorre procurava manter-se o mais distante possível de Angélica. Só permanecera ao lado dela o tempo suficiente no altar para dizer o maldito sim e depois quando  tivera que sentar-se ao lado dela para o jantar. No mais, evitara até mesmo olhar na direção onde ela estava.
            - Você está pegando forte demais! - Renato lhe dissera enquanto ele entornava mais uma taça de champanhe. Além de estar passando da conta com a bebida!
            - Não se meta nisso! - Foi sua resposta. - Sei o que estou fazendo. Além do mais, quase todos que estão aqui sabem que não estou casando por que estou desesperadamente  apaixonado pela madre Tereza! E eu bebo o quanto quiser. Sou maior de idade há muito tempo para poder saber o quê e o quanto quero beber!
            - Tudo bem! - Renato tentou dizer a si mesmo que não tinha o direito de regular o quanto Juliano bebia ou deixava de beber. Mas trate-a um pouco melhor.
            - Como já disse, sei o que estou fazendo! Então, não se meta com os meus assuntos. - Juliano era curto e grosso. - Eu e ela temos um acordo. E ela não espera nada mais de mim além do que estou fazendo.
            - Sei disso! Mas os filhos de Angélica esperam que ao menos você demonstre um pouco de educação, não acha?
            - Minha paciência tem limites. E já usei tudo o que tinha diante daquele padre idiota! Quer que eu faça o que mais? Que fique do lado daquela chata, amável, sorridente com todos, quando na verdade eu gostaria de estar a quilômetros daqui,  numa cama rodeado de belas mulheres a satisfazerem os meus desejos mais sórdidos?
            - Você é vulgar.
            - Sou, sei disso e aceito o insulto como se fosse um elogio. Gosto de ser vulgar. Acha que conseguirei ser um bom marido para a boa samaritana? A bondade dela me enoja e me aborrece. Acha que eu acredito realmente que um ser humano possa ser  tão dedicado ao bem estar dos outros? Acha que ela finge ser boazinha e não quer levar nada em troca? Acha que ela se casou comigo desinteressadamente?
            - Acho tudo isso que você falou aí. Conheço Angélica. Ela tem a índole boa e sempre esteve disposta a ajudar a quem necessita dela.
            - Então foi por isso que ela se casou com o velho gagá e, quando o coitado morreu do coração, depois que ela deveria tê-lo cansado bastante, ela herdou uma  considerável fortuna e se transformou numa das mulheres mais ricas do Brasil. Tão boazinha a coitadinha, não?
            - O marido de Angélica não era tão rico assim e você sabe disso. Ela enriqueceu por seus próprios meios e talento.
            - Eu sei qual é o talento dela. Deve aparecer quando está na cama com um idiota.  E mesmo que o velhote não fosse tão rico, tinha algumas propriedades, as quais  ela herdou e assim deu início ao império que a filha dela, que por acaso é a sua mulher, comanda hoje. Para mim, ela deu o golpe no velho e pronto!
            - Você não sabe o que está falando!
            - Claro que sei. Acha que ela entrou nesse casamento sem levar nada em troca?
            - E o que ela levaria de você? Seu dinheiro? Ela não precisa disso!
            - Talvez ela me queira como prêmio!
            Renato, que dificilmente ria abertamente, não pode evitar uma explosão de  gargalhadas. O fato era tão estranho que até Gabriel Villas-Boas e Eduardo Dreyser, que conversavam no outro extremo da sala, se entre olharam curiosos. Todos os  presentes estavam muito acostumados a ver Renato Valente como o mais sisudo dos homens, embora, quando todos eles se juntavam para jogar vídeo game, Renato se comportasse  como um menino de doze anos. Mas esses acontecimentos eram raros!
            - Somente você seria capaz de me fazer rir dessa maneira! - Renato falava com os olhos sorrindo.
            - Acha divertido o que eu disse? Que a velha está de olho em mim?
            - Eu nunca havia percebido o quanto você é divertido!
            - E por que acha estranho que a velha esteja interessada em me conquistar?
            - Em primeiro lugar, Angélica não é velha! É mais nova que você!
            - Sou homem!
            - Ah! Sei! Os homens não envelhecem, apenas as mulheres!
            - Um homem pode fazer um filho aos setenta anos. Uma mulher deixa de ter esse tipo de serventia antes dos cinquenta!
            - Talvez seja por que é a mulher que carrega em seu ventre um filho durante nove meses enquanto o pai sai por aí usando suas qualidades fertilizadoras. O homem  só planta. A mulher tem que cuidar do fruto da terra durante toda a vida.
            - A mulher que te trouxe ao mundo não cuidou de você nem mesmo por uma hora!
            Renato engoliu em seco. Se fosse há alguns anos, teria dado um murro na cara de Juliano para desmaiá-lo, ou quem sabe, matá-lo. Mas já aprendera a conviver  com a dor de ter sido atirado ao lixo quando nascera. E, além disso, conhecia Juliano. Se ele se sentisse acuado, partia para o ataque. Sempre fora assim e ele  fora o único que soubera compreender o amigo. Por isso, ainda hoje, a amizade perdurava. Entretanto, se continuassem daquele jeito, tinha suas dúvidas se manteria  aquela perniciosa amizade por muito tempo. Ninguém mais, nem o próprio pai de Juliano fora capaz de suportá-lo. Há anos que pai e filho haviam rompido relações  e agora o velho morava na Austrália com uma mulher que conhecera por lá e acabara se casando. Quanto aos amigos... O gênio ruim de Juliano não lhe permitia cultivar  amizades.
            - Desculpe-me. Peguei pesado! Não tive a intenção...
            - Teve sim. - Mas Renato acabou dando de ombros. Juliano não era o tipo de pessoa que pedia desculpas e, se chegara a pedir, era por que realmente se arrependera  do que havia dito.
            Juliano Dellatorre estava arrependido do que dissera. Por que tinha sempre que ser tão impulsivo? Detestava aquele defeito seu de falar antes de pensar direito.  Magoar deliberadamente Renato Valente era tudo o que ele achava de mais deplorável em si mesmo.
            Gostava do amigo. O único amigo que tivera a paciência de aturar o seu gênio forte. E nem entendia por que, pois sabia que, embora Renato sempre parecesse imperturbável,  também tinha um gênio forte e sabia ser tão inflexível quanto ele. Contudo, era seu amigo, quase irmão. E dizer-lhe coisas desagradáveis, magoá-lo, ofendê-lo era  o mesmo que estar se digladiando contra si mesmo! Era o único ser do mundo a quem pediria perdão. Melhor. Era o único ser do mundo a quem imploraria por perdão.  Mudaria de assunto e rezaria intimamente para que Renato voltasse a gargalhar como fizera segundos antes. Era tão bom ver o amigo rir daquela forma. Podia contar  nos dedos as vezes em que vira seu amigo demonstrar qualquer tipo de sentimento.
            - Acredite em mim, aquela puritana me quer. E vai fazer de tudo para me levar para a cama dela.
            Renato não pode evitar. Mesmo se sentindo ainda um pouco ferido pelas palavras grosseiras de Juliano Dellatorre, tinha que reconhecer que o amigo estava mesmo  vendo chifres em cabeça de cavalo. Gargalhou outra vez.
            Sabrina, sua esposa, ao vê-lo rindo daquela forma, chegou perto do marido e entrelaçou seu braço no dele.
            - Que houve? O que Juliano lhe disse para que ria dessa forma?
            - Está vendo, meu amigo? Até minha mulher estranha o fato de eu estar gargalhando desse jeito. - E, dirigindo-se a esposa. - Querida, Juliano é um piadista,  não lhe disse? Contou-me uma piada muito engraçada.
            Sabrina olhou para o homem que acabara de se casar com a sua mãe e duvidou que aquele troglodita tivesse senso de humor. Mas sorriu ternamente ao marido. Afinal,  eles eram amigos há muito tempo. Não seria de bom tom mostrar-se duvidosa naquele momento.
            Entretanto, não gostava daquele homem e não gostava que seu marido, o juiz Renato Valente, ficasse muito tempo perto daquele homem insuportável. Sentia pena  de sua mãe por ter-se casado com aquele animal irracional. Todos os filhos tentaram dissuadi-la daquela idéia absurda. Até mesmo os genros tentaram de tudo. Ninguém  conseguiu convencê-la do contrário. Somente Joyce se mostrara confiante naquele desastroso casamento. E, por ela, unicamente por acreditarem que Joyce jamais se  enganava, foi que os irmãos resolveram permitir que sua mãe cometesse aquela loucura. Se Joyce tivesse se mostrado contra o casamento, todos, com toda a certeza,  teriam amarrado a mãe numa camisa de força e proibido, com todas as letras, que Angélica se casasse com aquele ser de outro planeta!
            - Infelizmente vou ter que acabar com essa alegria toda, Sabrina. - A voz de Joyce chegou até eles. - Nossos bebês estão querendo a nossa presença.
            Sabrina agradeceu aos céus por não ter que ficar perto de Juliano por muito tempo.
            Saiu sorridente e enquanto acompanhava a irmã, que se dirigia ao andar de cima onde estavam as crianças menores, olhou para trás, para o lugar onde Renato e  Juliano estavam.
            - Estou tão preocupada com mamãe. Ela não devia ter-se casado com aquele homem!
            - Nós já esgotamos esse assunto, Sabrina. - Joyce falou de forma apaziguadora.
            - Além disso, eles agora já estão casados. Nada mais poderemos fazer.
            - Tenho medo de que nossa mãe sofra. Ele parece ser tão... cruel. A cara dele é de uma pessoa cruel, você não acha? - Sabrina rezava intimamente para que Joyce  a contradissesse. Que falasse que aquelas cismas eram coisas de sua mente. Que sua mãe seria feliz.
            - Não se preocupe. Mamãe sabe o que está fazendo. Ela já saiu de muitas situações complicadas antes. Se esta se complicar, ela vai saber dar a volta por cima!
            - Acha mesmo? Acha que a situação poderá se complicar ainda mais? Acha que nossa mãe sofrerá muito ao lado desse homem?
            - Fique tranquila. As coisas poderão parecer terríveis, mas se ajustarão.
            - Em suas previsões para ela você viu esse casamento, não?
            - Vi.
            - E depois?
            - Depois tudo se acertará.
            - Tem certeza? - Perguntou com o coração repleto de esperanças.
            - Tenho.
            - Sei não... Sabrina estava em dúvida. - Ele olhava para ela com raiva. Estava claro que sentia ódio por mamãe. Ele não tinha como disfarçar. E acho que mamãe  percebeu. Como ela estará encarando isso? Estava se casando com um homem que a odiava. - Por mais que confiasse nas previsões da irmã que nunca errava, sempre poderia  haver uma primeira vez. Não queria que sua mãe sofresse mais. Queria vê-la tão feliz quanto ela se sentia ao lado de Renato. Ou como Joyce ao lado de Eduardo Dreyser  ou Carine ao lado de Gabriel Villas-Boas. Bem, não podia deixar seu irmão Bruno de lado que também era feliz ao lado de seu parceiro e amigo César Romero. Todos  os seus irmãos eram felizes e tudo isso eles deviam ao amor, a paciência, a dedicação e ao respeito com que haviam sido criados por Angélica. Então, por que sua  mãe, que fizera de todos eles pessoas amadas, felizes, completas e realizadas, também não poderia experimentar a mesma felicidade com a qual brindara aqueles a  quem ela tanto amara e aos quais dera tanto de si?
            - Ele não odeia nossa mãe. Ele odeia a situação em que foi envolvido. - Joyce falava enquanto subia as escadas para ver o seu bebê que nascera a pouco mais  de um mês.
            - E, em contrapartida, acredita que nossa mãe é a culpada por ele ter que achar num casamento a saída para resolver parte de seus problemas.
            - Não encaro as coisas dessa forma, Sabrina. Acredito que ele está grato a nossa mãe por ela ter-se prontificado a ajudá-lo. Quem mais teria coragem de fazer  o que ela fez?
            - Então, me diga por que ele a olha como se ela fosse a culpada de tudo?
            - Ele deve estar um pouco confuso... E, de certa forma, ele tem toda a razão em acreditar que foi nossa mãe que o colocou nessa situação.
            - Mas ela jurou que não foi a responsável pelo que aconteceu!
            - Sim. Mas ele tem suas dúvidas, certo? Afinal, ela jurou que tomaria essa atitude e ele pagou para ver. E viu. E está pagando pelo seu erro!
            Chegaram ao quarto onde as crianças menores estavam com suas respectivas babás. Lá estavam o bebê de Joyce, o bebê de quase um ano de Sabrina e um dos filhos  adotivos de Bruno e César, que também não contava ainda com um ano.
            Joyce pegou seu manhoso bebê de olhos azuis no colo e o embalou. Pensou em seu adorado moreno Eduardo Dreyser e deu um suspiro de felicidade. Conseguira conquistar  o coração daquele bárbaro, não conseguira? Então, por que duvidavam que Juliano Dellatorre iria cair de quatro por sua mãe? Ia cair, disso ela tinha certeza. Aquele  presunçoso arrogante ia se arrastar aos pés de sua mãe e não ia demorar muito!
            Haviam conhecido Juliano Dellatorre há quase um ano quando Ele viera da Argentina para ser um dos padrinhos de casamento de Renato. E não gostaram dele! Eram  amigos desde que Renato saíra do orfanato e fora cursar a faculdade de Direito. Na época, Juliano já havia iniciado e desistido de outros cursos universitários  e nunca se decidia por nenhum. E foi exatamente isso o que aconteceu com o curso de Direito. Acabou desistindo e retornando para Engenharia. Mas a amizade que nascera  entre aquele filhinho de papai mimado e rico e o rapaz negro que não tinha eira e nem beira, cresceu e se fortificou com o passar dos anos. E fora algo bom para Juliano. Como tinha um gênio terrivelmente  forte e colérico, quase não tinha amigos. As poucas amizades que fizera em sua vida, tentavam, a todo o custo, manter-se o mais distante dele possível. Até mesmo  seu pai o evitava. E, quando foi montar seu primeiro negócio, o pai milionário, cansado de ver o filho iniciar tantas coisas e não levá-las até o fim, negou-se  a injetar dinheiro em sua recém iniciada empresa de construções. E quem o ajudara fora o negro órfão com quem fizera amizade. Renato empregara na empresa de Juliano  todo o dinheiro que ganhara ilegalmente. Era o dinheiro do jogo clandestino, único caminho que Renato encontrara para ganhar o bastante, pois percebera que o trabalho honesto, das oito as  seis, como contínuo, não o levaria a lugar algum. Entretanto, embora estudasse Direito, aprendera rapidamente a investir corretamente e logo ganhara muito, tanto  que  transformara-se num montante capaz de impulsionar as empresas as quais, ambos deram tudo de si para que crescessem. E, dessa forma, tornaram-se sócios e enriqueceram  muitíssimo. E, já naquela época, por ocasião do casamento de Renato e Sabrina, Joyce tivera a intuição de que aquele primeiro contato, cheio de antipatia de ambas  as partes, iria se transformar numa paixão devastadora. Era certo que isso ainda não acontecera, apesar do casamento. Mas era apenas uma questão de tempo. De muito  pouco tempo.
            Quando dera início a sua construtora, Juliano agradecera aos céus por não ter precisado do dinheiro do pai, com quem ainda tinha uma relação difícil. Mas, com quem a relação de amizade de Juliano não era difícil? Aquele homem parecia fazer o possível e o impossível para ser detestado!
            Entretanto, Juliano nem estava preocupado com o que achavam dele ou deixavam de achar. Em sua opinião, se gostassem dele, era um favor, se não gostassem, eram  dois.
            E, quando viera ao casamento de Renato, conhecera Angélica e logo de cara não gostara dela. Era o tipo da mulher com quem jamais se envolveria. Achara-a a mulher  mais sem graça do planeta. Percebera que o gosto dela para roupas era tenebroso, sempre com aquelas saias ou vestidos compridos, os braços tampados, as roupas um  tanto largas, cheias de florzinhas... Parecia vestida para dançar a quadrilha. Como uma mulher rica, dona de uma das mais luxuosas lojas do mundo se vestia como  uma caipira? Será que as três charmosas filhas de Angélica não lhe davam um toque com relação as suas roupas? Como ela conseguira dar início aquele sonho de glamour  que atraía pessoas do Brasil inteiro para as lojas que ela criara, que Sabrina, tão inteligentemente ampliara e que vendia modelos exclusivos das mais poderosas  grifes do mundo?
            Aquelas indagações não encontravam sentido no mundo de Juliano Dellatorre. Gostava das coisas simples, sem muita complicação. E aquela mulher sem sal e sem  açúcar, volta e meia rondava-lhe a mente como um enigma a ser decifrado. Se ele gostasse de charadas, iria perder um pouco de tempo para tentar compreender aquela  mulher. Mas não queria perder tempo com aquela coisinha insípida. Se ela gostasse de se vestir como uma velha mocoronga, o que ele podia fazer além de lamentar  ter-se casado com uma bruxa velha e feia? Por sorte, seu casamento era de mentirinha. Embora precisasse morar na mesma casa que aquela apavorante figura por um  ano, sabia que esse tempo passaria logo. Ele, com toda a certeza, iria arranjar algumas cariocas estonteantes para lhe fazer esquecer que era obrigado a dividir  o teto com aquela bruxa pavorosa.
            No casamento entre Renato e Sabrina, fora odiado por cada membro daquela família, inclusive por Olga, a gordinha com quem formara a dupla de padrinhos. Quando  fora apresentado a moça, que era a assistente de Sabrina na loja que ela administrava, disse em alto e bom som: "Não tinham uma madrinha melhorzinha, magrinha e  um pouco  bonitinha para ficar ao meu lado no altar, não?" Poxa! Vim de longe, né? Não mereço alguma coisa um pouquinho melhor? - E riu divertido enquanto se afastava  das pessoas que queriam fuzilá-lo.
            Aquelas palavras foram o suficiente para que o detestassem logo de cara. Afinal, todos adoravam Olga e perceberam que a moça sentira-se ofendida. Olga passara  por alguns problemas. Sua mãe havia se envolvido com um cafajeste que lhe roubara tudo. Então, de mocinha bem nascida e mimada, Olga passara a ter que ganhar o  pão de cada dia. Sabrina, sua amiga desde a infância, mostrara-se um pouco temerosa em dar emprego para uma amiga que empobrecera de repente. Temia que Olga, sempre  acostumada ao bem bom, não conseguisse se adaptar as novas regras que agora regiam sua vida, onde teria horários a cumprir, metas a atingir, contas a pagar, ordens  a obedecer.
            Fora Angélica quem decidira que Sabrina deveria dar uma chance para a jovem encontrar seu caminho. E Olga se mostrara uma funcionária da melhor qualidade, tornando-se  aos poucos, o seu braço direito.
            Dessa forma, todos criticaram a atitude de Juliano que não se mostrou nem um pouco consternado ou arrependido de ter dito o que dissera.
            - Não seja grosseiro! - Renato falou-lhe ao ouvido e, em poucas palavras, tentou explicar como Olga era querida por aquela família.
            - Estou ligando a mínima! Juliano dissera.
            - Venho ao seu casamento de bom grado e terei que passar um tempão ao lado daquele tribufu! Só faço isso por que gosto muito de você, meu amigo! Mas que é duro  de aturar a mocréia, lá isso é!
            E Juliano Dellatorre não fez a menor questão de abaixar a voz para que não ouvissem suas maldosas palavras.
            - Que grosseiro! - "Alguém cochichou".
            - Que desumano! -"Outra pessoa completou".
            Naquele momento, Angélica tivera o desejo de chutar aquele imbecil porta a fora. Como um ser humano poderia se mostrar tão desagradável? Nunca, em seus piores pesadelos, poderia um dia, sequer imaginar que acabariam se casando! Pior! Ela aceitara  aquela proposta indecente sem pestanejar. Agora, durante um ano inteiro, teriam que dividir a mesma casa, morar debaixo do mesmo teto que aquele ser ignóbil! Era  um castigo! Mas ela levaria aquela cruz até o fim, ou não se chamava Angélica Meneghel! Bem, na verdade, agora era Angélica Dellatorre! Mas não o seria por muito  tempo!


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