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domingo, 17 de julho de 2011

Era Uma Vez... Mariana

antonio banderas
 

          Ela se considerava uma garota muito feia e não sabia por que, sempre se apaixonava por homens bonitos. Mas tinha consciência de quem e de como era. Uma garota pobre, do subúrbio, sem muitas chances de ser feliz. Mas sabia que sonhar, ainda lhe era permitido.

                                                    Era uma vez... Mariana
                                                                                                 Por  Clarice Mascena

Prólogo


                 Berenice acabara de se deitar na cama de solteiro e pedira as amigas para puxar o zíper de sua calça para cima. Precisava entrar naquela calça jeans stretch, que comprara numa das inúmeras lojas de roupas do Saara, no centro do Rio, de qualquer maneira.
                 - Como ia deixar passar? Era uma liquidação! Que mulher consegue ver a palavra liquidação em algum lugar e passar batido? Até dói na alma não comprar uma coisinha! Essa calça tem que fechar! - Berenice quase chorava de frustração só de imaginar que não entraria ali. Ficaria sem comer nada no dia seguinte!
                 - Ufa! Conseguimos! - Soraia, uma bela morena de olhos verdes falou. - Você vai ter que perder uns quilinhos, senão vai acabar tendo que sair pelada na rua! Onde vai encontrar calças que consiga tampar esse rabo enorme!
                 - Olha só quem fala! Só por que parece ser magra não significa que a sua bunda não seja grande! Tanto é que vive a exibir esse rabo nos desfile da Portela!
                 - Mas jamais será tão abundante quanto a sua! - Soraia ria.
                 Berenice deu de ombros enquanto olhava-se no espelho grande do armário em seu quarto. A calça entrara, não? Então, não podia reclamar. Não ainda.
                 - Vai mesmo ver aquele emprego no Leblon? Vai ficar muito complicado para você ir até lá todos os dias. Da Pavuna ao Leblon é muito chão! - Berenice, ainda preocupada com o tamanho de sua bunda mas contente por que, além da calça entrar, ainda fechara, perguntou preocupada para sua amiga Mariana.
                 - Tenho que ir. Estou na pior. E nada de bom aparece. Tenho que tentar.
                 Tanto Berenice, que ainda se olhava no espelho sem saber se ter uma bunda tão grande era bom ou ruim e a bela morena de olhos verdes que parecia entediada, sabiam porque Mariana nunca conseguia um bom emprego. Era feia demais! E, sempre que acreditava estar subindo numa empresa, sempre que achava que as coisas iam melhorar, que ia ser promovida, era, no mínimo, esquecida na mesma função, exatamente como um objeto de pouca valia, mas que alguém deixava num canto da última prateleira do armário por que sabia que um dia ia precisar dela.
                 Era competente e seus chefes nem cogitavam a idéia de perdê-la. Infelizmente, também não cogitavam a idéia de promovê-la.
                 Como colocá-la como representante de uma multinacional? Tinham mulheres com quase a mesma competência e com uma aparência mais agradável aos olhos. Era, então, uma questão de bom senso. Muitas vezes, a beleza, que era um excelente cartão de visitas, conseguia milagres que a competência de Mariana, aliada a sua feia figura, não conseguiriam.
                 E assim, Mariana marcara passo em todos os lugares em que trabalhara.
                 Todavia, naquele momento, nem na prateleira de um armário qualquer, de um sótão, porão ou dispensa, ela estava. Agora, era mais uma desempregada e precisava urgentemente de arranjar alguma coisa.
                 Eram três garotas de trinta e quatro anos cada. Eram amigas desde a infância quando estudaram juntas em Madureira, da pré escola ao fim do segundo grau.
                 Das três, somente Mariana fora para a faculdade. E também fora a que melhor se dera na vida, embora fosse tão feia que nem um namoradinho conseguira ter. E, enquanto todos previam que ela jamais encontraria alguém que a quisesse, contra todas as expectativas, conseguira se casar.
                 Sua vida chegava a causar inveja em seus vizinho da Pavuna. Tinha marido, tinha um filho, tinha um apartamento agradável para os limitados padrões da classe média baixa a qual pertencia e tinha até um carro.
                 Berenice não fora a lugar nenhum. Era bonita e sensual mas vivia batalhando para não passar do manequim quarenta e quatro. Era uma mulata de fechar o trânsito quando passava de minissaia em direção aos bailes Funk que adorava freqüentar na maioria dos clubes do subúrbio ou em alguma favela tranquila onde seus amigos funkeiros gostavam de ir.
                  Como não conseguira bons empregos, era doméstica, com muito orgulho, como sempre dizia, pois aturar madame não era coisa para qualquer um. Exigia muita psicologia.
                 E Soraia. O que dizer de Soraia. A aspirante a atriz. Ou a qualquer coisa que a fizesse aparecer na televisão.
                 Era bonita, na verdade, sarará, da pele clara. Tinha olhos verdes e uma beleza quase afrontosa, na opinião de Mariana, que não tinha nenhuma.
                 Soraia se casara, largara o marido e o filho e ia empurrando a vida, trabalhando de qualquer coisa que Mariana ou Berenice lhe arrumasse ou como stripper, ou como dançarina de boate, ou como garçonete, dormindo com qualquer um e esperando que um dia sua sorte mudasse. Um dia, ia aparecer na Tv. E ficaria lá para sempre!
                 - Se você pudesse fazer um pedido para o gênio da lâmpada do Aladim que, por puro acaso lhe aparecesse de repente, o que pediria? - Berenice perguntou as amigas.
                 - Eu pediria para ser amada! - Mariana se apressou em dizer.
                 - Isso não tem graça. Todo mundo quer ser amado, seja homem ou mulher. Que gênio idiota ia perder seu tempo em lhe fazer uma pergunta tão complexa como a de lhe satisfazer um desejo para receber essa resposta boboca que qualquer um daria? Nem é preciso ser gênio para saber que todo mundo precisa de um amor, de uma paixão! Por mais que os intelectuais digam que essas coisas de amor são bobagens! - Berenice falou rindo da amiga.
                 - Ah! eu queria ter uma fada madrinha, um pouquinho melhor que a da Gata Borralheira, que me desse o papel principal na novela das oito e muita, mas muuuuuuuuuuiiiiittttaa fama mesmo! Queria ser a triz mais famosa do Brasil! Sabiam que eu acredito em fadas, né? E você? Olhou para Berenice.
                 - Ah! Como eu acredito nos anjos, pediria aquilo que vocês tão carecas de saber.. Queria ter um marido que me amasse além da conta e filhos! Muuuuuuuiiiiiiiiiiiiitos filhos! Mas não era para pedirmos ao Gênio? Por que estou falando em anjos?
                 - Simplesmente por que não acreditamos nos gênios! - Soraia sorriu.
                 Calaram-se. O que Mariana, a feia Mariana pediria? Já se casara, já tivera seu filho e não parecia querer a fama. Pelo que as amigas haviam entendido, ela só queria ser amada. E quem não queria? Como Berenice dissera, esse era o desejo de qualquer mortal.
                 Para Mariana, todos queriam mesmo ser amados, viver um grande amor, para sempre, com todas aquelas emoções dos primeiros dias da paixão. Mas ela não conhecia isso. O amor, em sua vida, sempre fora unilateral, sempre caminhara numa via de mão única. Nunca fora amada, nem por um homem e nem por sua família. exceto por seu filho. E isso já era um consolo. Mas queria mais. Muito mais. Por que não podia ser amada, desejada, querida? Por que não podia fazer parte dos constantes pensamentos de um homem? Só por que nascera feia? Por causa de algo do qual ela nem era culpada estava condenada a uma vida de eterna solidão e aflições?
                 Aquilo não era justo. As pessoas não deviam pagar por erros que não cometeram, por coisas que estavam além de sua vontade. Por que cargas d'água escolheria ser uma mulher feia incapaz de conquistar um homem?
                 - E você, Mariana? Peça outra coisa além do desejo comum a toda humanidade. Peça algo diferente. - Berenice arriscou.
                 - Ficaria contente se o meu escritor pessoal me arranjasse o emprego da dondoca que vou ver amanhã.
                 - Pobre! - Não sabe abrir essa boca para pedir algo realmente excitante?
                 - O escritor do meu destino não me permitiria ir tão longe! Nem mesmo um bom emprego ele está me permitindo conseguir dessa vez!
                 - Esse seu escritor é uma fada?
                 - Se for uma fada deve ser muito safada pois adora rir da minha cara.
                 - Pode ser um anjo... - Berenice arriscou mais uma vez.
                 - Só se for um anjo caído... - Mariana falou com desgosto.
                 - Mas peça algo... É só uma brincadeira. Não vai doer! Peça algo que lhe pareça impossível!
                 - Eu quero muitas coisas. Não uma só.
                 - Eu também. Gostaria de ser um pouquinho mais magra. - Berenice deu um tapa na bunda. - Embora eu ache minha bunda maravilhosa tenho medo que ela se torne pesada demais para eu carregar!
                 - Bem... Eu quero amar e ser amada. E... E... E quero ser, pelo menos um pouquinho... Bonitinha, né? Pelo menos o suficiente para não ter tanta vergonha de me deparar com um espelho a cada momento quando encontro um. Quero me olhar de frente sem pensar imediatamente em como sou feia!
                 - Tá bom! - Berenice falou fingindo contrariedade. Não ia mudar a cabeça de Mariana mesmo! - Então! Que os anjos digam amém aos nossos desejos!
                 - E que o meu escritor pessoal concorde com eles!


Capítulo 1
 Jocelyn Wildenstein

                 Mariana Eller engoliu um gemido ao entrar no salão onde as entrevistas para o emprego de assistente de Camille Werneck de Mattos estavam acontecendo.
                 Acordara muito cedo, as quatro da manhã, a fim de poder se ajeitar um pouco melhor e depois pegar o metrô na estação da Pavuna e, trocar de linha no Estácio a fim de chegar em Ipanema. E ainda teria que andar até o Leblon e quem sabe, chegaria a tempo de ser entrevistada? Dispensada sem nem mesmo passar pela entrevista? Ridicularizada por querer aquele cargo tão importante?
                 "Dane-se! Vou tentar de qualquer maneira! Não vou recuar com medo! Que o medo vá para a casa do caralho!" Pensou decidida. Tinha que ser assim, não? A vida não só lhe dera limões para ver se ela ia fazer deles uma limonada. A porra dos limões estavam secos! E nem tinha um pouquinho de açúcar em sua vida para que ela pudesse improvisar qualquer coisa que conseguisse descer pela garganta! Também não havia água! Só os limões! Secos!
                 Estava um pouco preocupada com o horário. Saíra cedo mas, da Pavuna até Ipanema levava mais de uma hora. Isso no metrô. De ônibus... Ela só chegaria no dia seguinte!
                 "Quem mandara ela morar tão longe?"
                 Não entendia por que a droga do metro tinha que ser tão limitada! Ouvira dizer que o metrô de Londres e o de Nova Iorque eram grandiosos. No Rio nada era tão grandioso, especialmente se o assunto era o bem comum. Bem, exceto os traficantes e a quantidade de favelas. Isso era realmente gigantesco!
                 "É isso que dá morar mal. Como um ser humano normal tinha coragem de procurar emprego na Zona Sul quando morava ali?" Deu de ombros. Quantas pessoas saíam de lugares até mais distantes para chegarem no serviço as oito? Ela não era a única. Tanto não era que a estação da Pavuna e todas as outras pelas quais o trem passava, estavam bem cheias. Quase todos tinham que sair de casa antes das seis!
                 "Pobre não tem vida!" Pensou com tristeza. "E quando o pobre é feio, então?" Mas não havia nada que se pudesse fazer, senão lutar. Lutar, lutar e lutar sempre. Esse era o lema dos seres humanos. Especialmente aqueles que ainda não haviam tido sorte na vida. E que talvez nunca tivessem. Como ela!
                 Embora muitas pessoas a considerassem um ser de muita sorte pois se casara, seu filho era saudável, tinha a sua casa e seu marido era um bom homem. Quem podia saber o que ela sentia? Quem tinha o direito de dizer que ela reclamava de barriga cheia pois tinha coisas que a maioria dos pobres como ela não tinham? E, por que as pessoas tinham o péssimo hábito de julgar as coisas pelas aparências. Até ela era julgada pela aparência. Era feia e se casara. Acabou. Não tinha o direito de reclamar, de querer mais, de sonhar mais! Sonhos não eram para pessoas como ela. Feia, pobre, e que já atingira o objetivo maior de uma mulher: Ser esposa e mãe!
                 Entretanto, temia que a dondoca que precisava de uma assistente nem perderia seu precioso tempo em entrevistá-la. A bela, como já vira em várias revistas de famosos, não ia contratá-la por que ela era uma coitada. Bem... Na verdade, não era uma coitada. Só era feia! Era estranho agradecer aos céus por ser uma pessoa responsável e uma excelente profissional e odiar, ao mesmo tempo, o seu escritor pessoal por que ele não lhe dera um rosto apresentável. Todos se guiavam por aquilo que viam em primeira mão. Mostrar a sua competência dependia de passar pela primeira etapa que era o seu rosto. E isso era algo cansativo. Geralmente era dispensada de primeira. Nem lhe davam a chance de abrir a boca. Cansara-se de ver as garotas bonitas ocuparem uma vaga muito sonhada e ter consciência de que tinha capacidade para preenchê-la. Mas assim era a vida! Tinha que aceitar o que a vida lhe desse. E quem poderia remar tanto contra a maré? Era pegar ou largar!
                 Mas tinha que aceitar, não tinha? Todos tinham. Era assim que a vida funcionava. As desculpas, as deduções filosóficas que não chegaram a lugar algum; as conclusões religiosas cheias de culpas e castigos terríveis para o pobre pecador, as frases feitas e quase sempre bobas, e que faziam pessoas mais bobas ainda suspirarem por que as achavam o máximo dos máximos entre o pensamento pseudo científico; e um monte de baboseiras que tentavam explicar ao ser humano estupefato por descobrir que nada é nada, que tudo é nada, que a porra da vida era nada, que nada fazia sentido, que ninguém tinha explicação para nada!
                 Mas uma coisa era certa. quem estava vivo precisava continuar lutando para continuar vivo. E era isso o que ela fazia. Tinha que comer, vestir, dormir, mesmo sendo feia e pobre. Todos tinham, embora, pessoas como a perua que estava oferecendo aquela vaga de emprego, também tivesse as mesmas necessidades que ela. Contudo sabia que a dondoca nem perderia o seu preciosíssimo tempo com ela se desconfiasse do lugar onde ela morava. Aliás, a tal dondoca nem deveria ter conhecimento dos problemas que gente como ela enfrentavam no dia a dia. E por que teria? Nascera do lado de dentro do carro.
                 Era assim que Mariana classificava o mundo. Uns poucos haviam nascido do lado de dentro de um carro. Era a classe média, a alta, aqueles que nunca precisaram pegar um ônibus na vida, contar o dinheiro para ver se dava para comprar um pão e talvez um litro de leite. Outros nasciam exatamente para contar moedas. Era a classe a qual ela pertencia. Nascera do lado de fora do carro e sabia que muitos, da mesma classe social a qual ela pertencia, ainda nasceram em piores condições. Além de terem nascido do lado de fora do carro, ainda tinham que vender balas nos sinais para quem estava do lado de dentro.
                 Um dia seu filho Tadeu lhe perguntara:
                 - Mãe, nós somos da classe média?
                 - Não! Somos da classe baixa. Para ser da classe média é preciso ganhar dez salários mínimos ou mais. - Respondera sem pestanejar pois tinha acabado de ver essa reportagem no Jornal da televisão.
    - Mas... Nós temos telefone, computador e um carro... - O rapazinho estava inconformado. Queria ser um membro da classe média como os seus amigos da escola particular que a mãe suava a camisa para pagar. Todos os seus amigos eram bem de vida. Vestiam roupas da Puma, Adidas, Lacoste e outras marcas caras. Somente ele se vestia mal entre os colegas. Riam dele. Faziam-no sentir-se como um estranho no ninho. Mas o que ele poderia fazer? Todavia, queria ao menos o prazer de ouvir a mãe dizer algo que o acalentasse, que o colocasse no mesmo patamar dos amigos.
                 - Qualquer um pode ter telefone hoje em dia. É só fazer o pedido e a companhia telefônica instala ele em dois tempos. Quanto ao computador, é só pagar em vinte e quatro vezes nas casas Bahia e quanto ao carro, desde que o presidente Fernando Henrique acabou com a inflação e o presidente Lula elevou o salário mínimo, qualquer um pode ir a uma concessionária e comprar um carro, desde que tenha o nome limpo. O problema é pagar depois.
                 O menino suou diante da possibilidade da mãe não estar pagando o carro.
                 - Não se preocupe. Enquanto eu estiver trabalhando... O carro e a sua escola estão garantidos. Por sorte, o PC está pago!
                 Tadeu suspirou aliviado. Sabia que podia confiar na mãe.
                 Então... Pertencemos a que classe?
                 - Classe miserável, filho. - Mariana respondeu quase sem perceber o que dizia.
                 - Classe miserável? - O menino berrou assustado. - Não sou miserável! Não sou mendigo, não durmo na rua! Esses é que são miseráveis!
                 - Não! Esses não tem classe nenhuma! São os desclassificados!
                 Agora, ela estava a um passo de se juntar aos sem classe alguma. Perdera seu emprego. E lá ela ganhava muito bem! O suficiente para pagar o carro que o idiota do Greg usava, com o tanque cheio por ela, enquanto ia e vinha, subia e descia, como se o carro fosse dele, como se fosse ele quem pagava o mecânico, como se fosse ele quem abastecesse aquela porcaria de tanque que bebia mais que o Zé da Lata, o mendigo pinguço que morava embaixo da marquise da loja de doces.
                 "Safado dos infernos!" Nunca entenderia os homens! O que mais Greg queria dela?
                 Agora que vivia a procurar outro emprego, o fato de morar na Estrada do Pau Ferro, na Pavuna, não era de muita ajuda. Era longe demais de tudo e de todos e duvidava que Deus olhara para aquele espaço do mundo ao qual todos haviam resolvido designar como a Baixada Fluminense! Por sorte, já estava de olho num quitinetezinho em Madureira, mas só poderia alugá-lo se conseguisse o tal emprego com a socialite que precisava de alguém para lhe coçar as costas, enxugar-lhe a perereca quando ela fazia xixi ou coisa parecida.
                 Lera em uma revista de gente famosa que a loura tinha um cabeleireiro sempre a sua disposição e uma personal stylist. Chique! Simplesmente bárbara! Mariana não sabia que porra era aquela de personal stylist mas, se conseguisse o emprego com a perua, ia perguntar. Estava bastante curiosa para saber como funcionava o mundo daqueles endinheirados. Em seus empregos anteriores, até que conhecera muitos engravatados. Entretanto, ricos de verdade, jamais conhecera nenhum. Mas será que Mariana acreditava mesmo que conseguiria aquela vaga? A mulher era muito rica e muito sofisticada. Já fora casada com um príncipe europeu e já fora noiva de um Sheik árabe! Ia ser osso duro de roer conseguir a aprovação da dondoca para empregá-la. Não tinha a tal boa aparência exigida no pedido para uma assistente. Fora uma amiga sua, que virara babá na Zona Sul que soubera que a madame precisava de alguém para auxiliá-la.
                 Sua amiga Berenice, que conseguira aquele emprego através dos conhecidos de Mariana, esticara os ouvidos, aliás como faz toda empregada que se preza, para ficar por dentro das últimas fofocas e ouvira tudinho o que a mãe da criança de quem ela cuidava segredava a mãe de outra criança da qual ela se encarregara naquele momento sem que fosse paga para isso! Estava aborrecida, aliás, como sempre. Todas as vezes que uma mãe vinha com um pentelhinho visitar a sua patroa, Berenice acabava tomando conta de mais de uma criança sem que isso fosse pago como trabalho extra. Por isso, ia dar a dica para a sua amiga Mariana que estava desesperada atrás de emprego.. Além disso, não fora Mariana que lhe estendera a mão quando necessitara de ajuda? !
                 Uma mão lava a outra e as duas lavam o corpo inteiro!" Fora assim que a mãe de Berenice a criara. Sempre deveria retribuir um favor.
                 A madame marcara a entrevista para aquela manhã, numa salinha de um aparte hotel do Leblon, mas não colocara anúncio em jornais, pois não queria que aparecesse por lá um catatau de gente, ou de gentalha, a procura por um emprego que deveria estar cheio de glamour!
                 Mariana entendia que ao se referir a gentalha, com toda a certeza a madame se referia a pessoas como ela. Mas ela iria assim mesmo. E se fosse a única a aparecer por lá? Nesse caso o emprego seria seu. A madame não teria outra solução. Já que não quisera se arriscar a ter em sua porta uma interminável fila de gentalha... Deveria se contentar com uma única representante da raça!
                 Não podia reclamar da madame. Se não conseguisse esse emprego e suas chances eram mínimas, não saberia como fazer para se sustentar e sustentar o filho de quinze anos que no momento estava morando com sua mãe, o que não era nada, nada, nada bom!
                 Estava na maior pindaíba desde que chutara o balde. Desde que resolvera acabar com aquele casamento sem graça que não lhe trouxera nem um pouquinho de felicidade.
                 O pior de tudo era sentir aquela maldita culpa! Só podia ser coisa de mulher, coisa que devia estar enraizada desde os primórdios da humanidade, tão forte que nem analista pós graduado conseguiria reverter tal quadro. As mulheres tinham o péssimo defeito de se sentirem culpadas quando o seu homem tinha uma diarréia ou mesmo quando o homem confessava tê-las passado para trás.
                 Lógico que a culpa era sua. Tanto no caso da diarréia quanto na traição. Dera-lhe algo ruim para ele comer. Nos dois casos! Ele comera e não gostara, não devia estar bem temperado ou o tempero era ruim demais!
                 Que analista entenderia isso? Gostaria muito de saber.
                 Não que tivesse a menor condição de frequentar um analista. Era pobre e pobre que se prezava não perdia tempo com essas frescuras. E o que um analista que jamais deveria ter vivido na merda saberia sobre a vida de gentalha como ela?
                 "Não! Não sou gentalha! Não sou gentalha! Não sou gentalha! Esse é o meu novo mantra! Vou cantá-lo até acreditar nisso! Não sou gentalha! E não preciso e jamais precisarei de um analista!""
                 Com ela, as coisas se resolviam assim, de um pulo. Bem... Não era de todo a verdade. Demorara dez anos para ter a coragem de pedir a separação.
                 Também isso não era de todo a verdade. Pensara em separar, ou não juntar, muito antes de dizer o sim. E nem sabia por que dissera o raio do sim!
                 Na verdade, nem quisera se casar com Greg. Mas casara, não casara? E levara aquele casamento fracassado nas costas, não levara? Não sustentara aquele vagabundo a maior parte do tempo? O pobre coitado vivia desempregado. Muitas vezes o emprego que ele conseguia as oito da manhã já havia ido pro espaço antes das quatro da tarde! Se tanto!
                 Fazer o que? Ela nascera feia! E nenhum homem de verdade iria querer se casar com ela. Não adiantara acalentar sonhos de que um príncipe lindo e loiro iria aparecer na sua vida por que não iria! Mas não fazia questão de um príncipe louro. Gostava mais dos morenos. Mas também não fazia questão que fosse um príncipe. E nem mesmo que fosse lindo. Ela não era, porque iria exigir isso? Só fazia questão que fosse um homem. E que ela o amasse! E que ele a amasse ainda muito, muito, mas muito mais do que ela a ele! Mas já passara da época dos sonhos, da época de acreditar em contos de fadas, em homens perfeitos e maravilhosos, que se apaixonariam por ela ao primeiro olhar ou que ao vê-la, ao conhecê-la, algo o faria reconhecer que ela era a sua alma gêmea, a mulher perfeita para ele, mesmo que ela não fosse bonita!
                 Por que mulheres feias, que pregavam aos quatro cantos do mundo que a beleza não era tudo, sonhavam com homens tão lindos quanto Brad Pitt, Keanu Reeves e George Cloooney? Por que almejavam justamente aquilo que talvez nem mesmo chegariam a ver um dia ao vivo e a cores?
                 Bem, ela não sonhava com os hollywoodianos somente. No Brasil tinha Du Moscovis, Rodrigo Santoro, Malvino Salvador e uma extensa lista de homens maravilhosos para ela babar e que talvez um dia até esbarrasse neles. Afinal, estava na Zona Sul, não? Não era ali e na Barra que todos os lindos da TV moravam? Infelizmente, as lindas da TV também? Ou alguém pensaria que eles morariam na Pavuna?
                 Mas, no instante em que um lindo da TV olhasse para ela, o universo se alinharia com os deuses do infinito e todos as forças cósmicas fariam com que ele a reconhecesse, soubesse que era ela que estava destinada a fazer dele o mais feliz dos homens enquanto ele a faria a mais feliz das mulheres, a mais amada, a única no coração e na mente dele! O lindo da TV entenderia que aquilo estava escrito nas estrelas e que ele nascera para ela e que ela nascera para ele! E ele a acharia tão linda quanto as lindas com as quais ele estava acostumado a contracenar!
                 Pensando bem... Deu de ombros... Sonhar não pagava nada!
                 Assim, mulheres feias como ela podiam sonhar com homens lindos e manter o discurso de quem vê cara não vê coração, que beleza não põe mesa e...
                 Aha! Esse era mentira. Mulheres bonitas ganhavam muito bem. E a mesa sempre estaria repleta de guloseimas para elas! Guloseimas como... Floriano Peixoto e Luciano Zafir, por exemplo!
                 O que tinha demais em seu mentiroso discurso sobre a beleza e a feiúra? Tinha que se defender de alguma forma! Tinha que fazer as pessoas compreenderem que os feios também tinham sentimentos! Era só uma pequenina hipocrisia, do tamanho do nada e que não feria ninguém. Ora bolas! O feio também era gente! Muito embora, a maioria das pessoas que ela conhecia e que nem eram tão deslumbrante gostavam de humilhar os feios. Era só assistir a um programa humorístico e ver como zoavam os feios, os gordos, os homossexuais! E a sociedade toda era conivente. Riam a valer e depois fingiam-se de inocentes! Eles sim eram hipócritas!
                 Era o mesmo que ouvir os pobres dizendo que dinheiro não trazia felicidade.
                 Pura bobagem! Se, naquele momento ela tivesse bastante dinheiro não teria que acordar tão cedo e atravessar metade do Rio de Janeiro para comparecer a uma entrevista de emprego onde ela não teria a menor chance.
                 E qual o rico, mesmo infeliz, que gostaria de ser pobre? Por outro lado, todos os pobres, até aqueles que diziam que ser rico não era sinônimo de felicidade, ansiavam por ganhar na loteria. Pelo menos, todos aqueles que depreciavam a riqueza jogavam com afinco e determinação!
                 Olhou as moças a sua volta. Tinha até três bichinhas, lindas por sinal,! Aliás, todas as mulheres que estavam ali esperando a hora de ser entrevistada pela dondoca, eram lindas! Cada uma mais bela que a outra! Que chance teria? Perdera seu tempo. Era melhor ir embora de uma vez! Nunca que passaria adiante.
                 Pensou no apezinho em Madureira. Viu-o desaparecer de seus sonhos como bolha de sabão.
                 Deu de ombros! A porcaria do apê ficava na beira da linha do trem. E os trens da Supervia passavam de cinco em cinco minutos!
                 Isso era o lado bom da vida. Tudo o que ela queria e não conseguia alcançar, tinha um zilhão de defeitos. E era engraçado que, todas as vezes que precisara fazer uma escolha era entre uma situação ruim e uma situação detestável. As coisas sempre eram tão desagradáveis que qualquer escolha parecia uma sentença de morte. Assim, perder alguma oportunidade nem doía tanto.
                 Um exemplo era a decisão que tomara. Ou continuava com Greg, aquele marido bonzinho, mas imprestável ou se separava e ficava sozinha, literalmente sozinha. Nunca mais transaria em sua vida. Greg era uma merda mas transava com ela de vez em quando. Quem iria querer sexo com ela agora, aos trinta e quatro anos? Se antes fora difícil pra cacete conseguir que Greg olhasse para ela. Tivera que sustentá-lo por dez anos para poder ser digna de carregar o nome de esposa!
                 "Que horrorosa!"
                 "IH! Quem será o trambolho que acabou de entrar?"
                 "Nossa! Que mulher mais esquisita!"
                 "Caramba! Como essa coisinha feia pode ter a petulância de vir até aqui se candidatar a mesma vaga de emprego que eu estou atrás? Devia ter simancol!"
                 "Ah! Pra essa aí eu não perco mesmo!"
                 Mariana havia sentido sobre si a força destrutiva de oito pares de olhos femininos e três pares de olhos que ela ainda não se decidira como classificar. Mas de uma coisa ela sabia. Eram hostis. Os olhares femininos e os olhares gays. Mas não era tudo a mesma coisa? E não estavam nem um pouquinho satisfeitos por que ela estava ali, por que tivera a audácia de pleitear para si a mesma vaga que eles tão ansiosamente quanto ela, almejavam. Estava denegrindo a imagem do lugar! Estava manchando aquela colocação com a sua feiúra!
                 Por que os seres humanos eram tão bobocas? Cada um achava que a vida fora escrita para que ele desempenhasse o papel principal. Infelizmente, esse não era o seu caso. O deus escritor que perdia tempo em escrever a sua história fora contratado as pressas, ainda não estava graduado e não era um autor muito satisfeito com aquela inglória tarefa.
                 Com toda a certeza, o deus autor de sua história era um boêmio mal humorado por não ter o seu trabalho como escritor reconhecido e, quando escrevia o seu destino, as suas cenas, por mais que o autor principal lhe dissesse para pegar leve, que não queria que sua obra fosse pontilhada de grandes tragédias, ele sempre dava um jeitinho de enganar o deus maior, o verdadeiro dono daquela obra de arte e sacaneava ela pra valer!
                 Ou o deus maior era o editor? O editor daquele livro chamado Terra. "A vida na Terra! Não importava. Fosse como fosse, o seu autor pessoal adorava lhe passar a perna!
                 Quando tudo isso acabasse e ela fosse chamada para o seio do criador, lá no céu, pois não tinha a menor dúvida de que iria pra lá, ela ia ter uma conversinha com o autor principal. Ia reclamar sobre aqueles autores secundários e safados que viviam sacaneando seus personagens, rindo todas as vezes que eles quebravam a cara, tipo, fazer com que ela derramasse um saco de açúcar, ou um pacote de ovos no chão, dois segundos após ter acabado de lavar a cozinha. Ou ainda, se divertia quando ela perdia um pé do único par de meia que ela possuía. Ou fazia com que seu ônibus parasse em todos os sinais e pontos lotados de gente quando ela estava atrasada ou simplesmente o raio do ônibus quebrava.
                 Ora bolas! Se o tal não queria ser visto como um escritor de quinta, por que descontava nela e em outros como ela as suas frustrações de deus não reconhecido pelo seu talento?
                 Por que os deuses eram cruéis? E por que as pessoas sempre lhe diziam para confiar em Deus, que ele era bondoso e no final tudo daria certo quando todos sabiam que não daria?
                 Sua mãe dizia: Espera em Deus! Ele sabe de todas as coisas! E ela esperara. E esperara. E esperara. esperara até que sua mãe, que tanto falava em Deus, fosse uma mãe para ela!
                 Mas, pelo jeito Deus não sabia de todas as coisas. Ou apenas arranjara aquele escritor ajudante e sabe-se lá quantos mais para ajudá-lo a escrever os destinos dos filhos da puta como ela que sempre se davam mal! E até quando esperaria?
                 Todavia, não podia perder tempo pensando no autor que escrevia o seu destino naquele momento. Todas aquelas cabeças estavam voltadas para ela e ela não sabia muito bem o que fazer. Deveria sorrir para todos ou procurar, entre as feras, um rostinho mais simpático e se esconder atrás dessa pessoa? Ou deveria ignorar os olhares hostis e posar de arrogante tanto quanto eles? Ou deveria dar meia volta e sair dali reconhecendo que ali, com todo aquele glamour da Zona Sul, não era o seu ambiente e que cada macaco deveria ficar no seu galho e...
                 "Oh! Por que o raio da loteria genética tinha que estar mal arrumada justamente na hora em que papai e mamãe estavam me fazendo naquele ninho de amor?"
                 - Aaaaaaaaaarrrggghhh!
                 Em vez de sorri ou cumprimentar alguém, fez uma cara de pavor ao imaginar seu pai, que se ainda estivesse vivo ou em qualquer lugar do planeta, deveria estar pesando uns duzentos quilos, fazendo amor com sua mãe. Não queria pensar em sua mãe trepando com alguém em nenhum momento, nem mesmo com o seu pai. Mesmo por que sua mãe era assexuada. Nem sabia como pudera ter gerado três filhas! Dona Norma era totalmente contra o sexo, contra todo e qualquer tipo de prazer mundano, carnal, exceto o prazer desmedido que sua mãe tinha de tirar dinheiro dela!
                 Mas agora tinha uma outra preocupação mais premente! O barulho! Emitira, tinha certeza, um barulho esquisito ao pensar em seus pais fazendo amor. Amor?
                 - Aaaaarrrggghhh!
                 "Oh, não! De novo, não! Deus me odeia! Não é possível! Tudo o que quero é ficar invisível e esses sons estranhos ficam escapando de meu corpo sem que eu consiga contê-los! Vão acabar me linchando aqui!"
                 Agora todos a olhavam com um certo rancor. Mariana tinha certeza de que eles a observavam por que não gostaram de saber que ela tivera a pretensão de disputar com aquelas deusas da beleza uma vaga, e quando pensava em deusas incluía as bichinhas no pacote, pois também eram lindas de arrasar! Ou será que era por que eles tinham ouvido aquele som estranho que ela achava que escapara das profundezas de sua alma? Pensariam que ela arrotara ou que um ventinho saíra de um lugar mais abaixo?
                 " OH, Deus! Eu não liberei nenhum tipo de gás.! Tenho certeza de que não fiz isso! Se fiz, eles vão me linchar aqui!"
                 Mas os olhares hostis não se despregavam dela!
                 "Droga!" Pensou. Seu escritor estava aprontando mais uma das dele com ela. Agora sabia que um por um dos que estavam ali havia interpretado seu gesto de repugnância como um ato de explícita antipatia e nojo contra cada um deles! E tinha certeza que sua cara, que já não era o seu melhor cartão de visitas, deixava isso mais claro ainda!
                 Deu de ombros. Já estava lascada mesmo e certamente jamais tornaria a por os olhos em qualquer uma daquelas pessoas outra vez. E nem mesmo conseguiria o emprego.
                 Só não ia embora por que considerava um desaforo sair dali sem ouvir um não na sua cara ou pelo menos um "Entraremos em contato."
                 Afinal, acordara as quatro da manhã, arrumara seus cabelos, embora soubesse que aquele item não tinha solução conhecida no planeta, passara um creminho no rosto e um hidratante no corpo. Até batom e brincos estava usando! E estava cheirosinha, apesar do calor infernal que fazia, para variar, no Rio de Janeiro!
                 Geralmente, jamais se enfeitava. Nascera feia demais e ainda não haviam inventado nenhum cosmético capaz de melhorar ou mesmo esconder sua feia figura.
                 Mas por que estava perdendo seu tempo pensando na sua aparência? Não era de ficar matutando com aquelas coisas que não tinham solução.
                 Que se danassem todos!
                 Como a sala era enorme, procurou um lugar para sentar-se. Não ia fugir como uma criminosa! Não cometera nenhum ato vil. Apenas exprimira, em voz alta, o horror de imaginar sua mãe transando. Mães não transavam! Tudo bem que ela tinha trinta e quatro anos e ainda transava, quando Greg queria, o que era bastante difícil de acontecer e já era uma mãe! Será que seu filho pensava aquelas coisas a respeito dela? Mas era jovem. Sua mãe já passara dos cinquenta e... Estava sendo injusta. Quantas atrizes lindas de cinquenta anos ainda faziam com que o coração dos marmanjos batesse mais forte. O coração e outras partes do corpo masculino também.
                 Mas nenhuma delas era a sua mãe. Aquela mulher amargurada e infeliz. que seria capaz de fazer o amor cometer suicídio se um dia o encontrasse pela frente! Ia chamar o amor de pecador e dizer que ele queimaria no fogo eterno do inferno!
                 Como a sala estivesse decorada com vários sofás e poltronas, sentou-se na poltrona mais próxima a porta. Se a madame gritasse com ela, dizendo que ela nem deveria estar ali, seria muito fácil cair fora sem que ninguém percebesse o quanto estaria envergonhada.
                 Puxa!"daria tudo para poder fumar um cigarro!"
                 Ainda demorou alguns minutos para que o grupo parasse de olhar para ela. Mas ela nem ligara. Encontrara uma revista de celebridades, que tinha a dondoca na capa e se distraíra tão facilmente que logo se esquecera dos demais.
                 Todos estavam no mesmo barco que ela. Tinha que ter pensamento positivo. Enquanto a socialite não a expulsasse dali ela tinha tantas chances quanto qualquer um deles. E notara que todos também estavam nervosos e que deveriam ter agradecido aos céus pela chegada dela, o que os deixaram alguns segundos distante da angústia que eles também viviam.

     Infelizmente as pessoas não costumavam prestar atenção a esses pequenos detalhes que as ajudavam sempre que estavam em dificuldades. As pequenas dádivas passavam despercebidas por aqueles que haviam ganhado muito da vida. Apenas gente como ela, que nascera do lado errado da vida conseguiam agradecer aos deuses pelos pequenos presentes.
                 Contudo, estava um pouco desanimada. Era certo que sempre sonhara com príncipes encantados, que imaginava que sua vida seria totalmente diferente daquela gosma que lhe era apresentada agora, mas o que a entristecia de verdade era saber que nunca seria amada. E esse era o seu maior desejo. Todavia, do jeito que as coisas caminhavam em seu destino, pelas coisas que o seu autor pessoal, o deus escritor sacana, escrevia, nada ia melhorar. Em sua vida só apareciam sapos. Aquele tipo de sapo que não adianta beijar que a personalidade e a aparência permanecia a de um sapo. Ela até entendia que a aparência nunca mudaria. /Ela era uma prova viva disso. Mas, que diabos? Os homens de sua vida tinham um caráter cultivado na mais podre lixeira. / Já que apenas os sapos feios como ela, poderiam fazer parte de seu destino, não poderiam ser um pouquinho mais humanos, um pouquinho mais sensíveis, com um pouquinho mais de caráter? Estava cansada de homens aproveitadores, salafrários, traiçoeiros, vagabundos, mentirosos, marginais e por aí afora... Não gostaria de ter que virar freira na marra. Tinha apenas trinta e quatro anos e um desejo sexual normal para uma mulher da sua idade. Queria ser amada e respeitada como pessoa. Queria saber que alguém, em algum lugar desse planeta, sonhava com ela, pensava nela, tinha desejos por ela!
                 - Booooooooooom Diiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaa!
                 "O que era aquilo? Alguém estava sendo estrangulado?
                 Mariana levantou os olhos da revista e viu a encantadora perua, com uma calça tão justa que arrebentaria se nascesse, na perna da dondoca, apenas mais um fio de cabelos e um par de sandálias que deveria ter vinte centímetros de altura.
                 Todos, naquele salão, babavam literalmente!
                 E não iam babar? A mulher era linda! Mariana nunca vira algo parecido. Em toda sua vida jamais vira uma pessoa tão perfeita! Não era a toa que se casara com um príncipe! Não era a toa que fora noiva de um riquíssimo Sheik!
                 Um homem bonito e bem sucedido jamais olharia para uma mulher feia como ela. Gente feia como ela nunca seria capaz de chamar a atenção de um príncipe, de um Sheik, nem mesmo do cara que trabalhava num banco mexendo o dia inteiro no dinheiro alheio e nem do vendedor de roupas e sapatos de grife que vivia para adular as dondocas do mundo!
                 Aquilo sim é que era mulher! Nunca que a perua lhe permitiria trabalhar para ela! Não com tantas moças e bichinhas lindas ali, a sua volta!
                 Perdera seu tempo indo até ali. Deveria ter ido ao supermercado procurar um emprego de caixa ou repositora. Sua mãe não dissera que o supermercado da esquina estava precisando de funcionárias? Tudo bem que teria que tirar Tadeu da escola particular e tudo bem que teria que passar o financiamento do carro. E isso até que era bom pois desde que se separara, há dois meses, Greg queria o carro de qualquer maneira. Tanto que ela tivera que esconder o carro na casa de sua amiga Berenice que morava no Méier. Na Pavuna, qualquer um entregaria o carro a Greg, mesmo sabendo que ele não passava de um explorador da própria esposa!
                 Bem, na verdade, a maioria das pessoas, como a sua própria mãe, não pensava assim. Todos viam em Greg um marido bonzinho, alguém até mesmo apaixonado, apesar de alguns deslizes. Mas do que reclamava tanto? Sua mãe mesmo citava sempre: "Ruim com ele, pior sem ele!"
                 Mas o que poderia ficar pior se ela abandonasse aquele homem tão bonzinho?
                 E ainda tinham aqueles que diziam: Mas ele nem mesmo te bate? Por que quer largar um homem tão bom?
                 Sua mãe, que não concordava com a separação, seria a primeira a entregar o carro nas mãos daquele duas caras. Mas entendia sua mãe. Ela jamais perdoaria sua filha pelo imenso desgosto que lhe causara. Tanto que, agora que Mariana estava desempregada, sua mãe queria reduzi-la a nada. Achava que a filha apenas tirava onda quando dizia que ganhava bem. Achava que Mariana fora demitida por incompetência. Que ela devia baixar a crista e ir procurar emprego num supermercado onde fosse mais condizente com as suas qualidades.
                 Mariana nem perdera tempo em explicar para a mãe que Greg fora na empresa onde ela trabalhava e fizera das tripas coração para que ela fosse demitida. Tudo por que ela não queria lhe devolver o carro. Ele, assim como sua mãe e suas irmãs, ansiavam para vê-la na maior merda!
                 - BOOOOOOOOOOOMMMMMMMM DIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAA a todos! - A perua repetiu enquanto girava satisfeita por ter tantas, ou tão poucas pessoas para a entrevista. Enquanto girava, olhando em volta, seus olhos se encontraram com os olhos de Mariana. E, por alguns segundos, Mariana sentiu que eles se surpreenderam com o que haviam visto! Aquilo era algo ruim? A perua ia expulsá-la agora? Ia ofendê-la antes dizendo que era muita cara de pau dela achar que deveria estar ali?
                 Mas antes que Mariana conseguisse responder a si mesma, Uma bichinha lindíssima, alta, de ombros largos e corpo perfeito, de olhos verdes e cabelos muito, muito bem transados, acabava de entrar, acompanhado por uma moça alta, tão linda quanto a bicha, com cabelos na altura dos ombros em vários tons de louro, com quase 1,80m de altura e de formas bem definidas por muita malhação. Era, todavia, elegantéééééééérrima!
                 - Esse é o casal de personais preferido pela madame. - Ouviu uma das bichinhas que esperava para ser entrevistado cochichar com a outra bichinha, muito lindinha, pequenina, delicada e de cabelos louros. Uma boneca!
                 - Isso é pavoroso! Ouvi dizer que a mona-ocó e o adé são casados! Que coisa bizarra, não? Uma bicha e uma sapata! - O outro rapaz falou com desdém.
                 - É, mas essa é uma das duplas mais famosas do mundo fashion. Ele é um dos mais desejados cabeleireiro e maquiador das mais belas e ricaças mulheres brasileiras e ela é a personal stylist mais disputada. A vida desses dois é correr de um lado para o outro acompanhando as mulheres chiquéééééérrimas e que podem pagar pelos seus exclusivos serviços, em suas apresentações, onde quer que suas clientes ultra, mega, hiper, maxi e super endinheiradas estejam. E todas elas, queridinha, são sete estrelas! Deixe de inveja! Se a madame ouve você falar assim de seus mais adorados súditos, vai descer do salto e eu vou fazer de conta que nem te conheço, mona invejosa! Sabe que uma mulher de classe não vive sem o seu cabeleireiro! Prefere antes ficar sem um homem gostoso!
                 - Credo, bicha! Não é inveja não! Só acho estranho um casal cem por cento gay... E casados na igreja! É um babado e tanto!
                 - Vão nos ouvir! E esse casal aí é poderosíssimo! Eles estão em todas! Souberam como se juntar para ganhar fama e dinheiro!
                 - E eu não sei disso, bicha? Só acho esquisito que uma machona como ela seja style de mulheres tão perfeitas. As sapatas não gostam de frescuras!
                 - Algumas sapatas gostam. E além disso, nem sabemos se ela é mesmo sapata! E já foi modelo. Já foi capa de revista e tudo o mais! E você não pode ter certeza se a mona é mesmo metá-metá, pode?
                 - Claro que ela é sapata. Basta olhar para ela!
                 - Um, amiga, você está sendo preconceituosa. Tudo bem que ela parece uma Valquíria pronta para cavalgar pelo mundo afora caçando homens e destruindo-os até a última gota de sangue. Mas é uma Valquíria linda não? E peituda!
                 - Ah, não! Odeio sapatas! - E a outra bichinha encerrou o papo com cara de poucos amigos!
                 O casal, Duda e Aurora, passou por aqueles que falavam sobre eles como se nenhuma outra pessoa existisse. Não iam se importar com fofocas. Sempre que tinha algumas pessoas reunidas, eles tinham aquele tipo de curiosidade rondando suas cabeças.
                 - Bem, sei que todos que estão aqui sabem quem sou e também conhecem a minha inseparável equipe...
                 Na verdade, Mariana não conhecia a equipe, mas ao ver que todos assentiam alegremente com suas belas cabeças graciosas, fez o mesmo, consciente de que o seu balançar de cabeças não era tão gracioso assim.
                 Foi então que o mundo se iluminou. O homem mais lindo, perfeito e moreno acabara de entrar. Era alto, de corpo atlético e maravilhooooooooooooooosoo!
                 Era, de certa forma, meio parecido com Antonio Banderas. Não! Pensando bem, tinha uma certa semelhança com George Clooney. Ou era uma mistura do que os dois atores tinham de melhor! De qualquer forma, jamais vira, de tão perto, algo parecido. E duvidava que algum dia veria!
                 Mariana percebeu que todos os olhares agora estavam sobre ele, totalmente diferentes dos olhares hostis que ela recebera ao entrar. Eram olhares de admiração, de contemplação, de adoração vergonhosamente explícita! Todas ali queriam dar para ele! Todas queriam pertencer aquele... Aquele... Ah! Não tinha palavras para descrever o homem! Ninguém se importava que o lindo era marido da dondoca! Aliás, era um casal tão perfeito que era quase impossível não olhar para eles. Eram pessoas que haviam sido sorteadas geneticamente para dar prazer aos olhos somente por olhá-los. Era algo inexplicável que Mariana sentia e percebia nas pessoas ali presentes. Mas esqueceu-se da mulher extremamente atraente. Só podia ver o moreno a sua frente! Era divino! Era de outro mundo! As pessoas que olhavam para aquele deus diziam em seus íntimos que fariam qualquer coisa que ele ordenasse. Inclusive ela estava pensando em se deitar no chão e se tornar o personal capacho dele!


Se gostou desse romance e quer saber como termina, acesse um desses links


                   


                                   Era uma vez... Mariana -Meu romance chick lit



               Eles dizem que não existe mulher feia, apenas pobre.
                                                
                                                             Foto retirado do site
           http://policelink.monster.com/topics/78819-there-are-no-ugly-womenonly-poor-women/posts
his photo was taken at a competition in June 2008 involving 9 women for best make over. They had every possible beauty treatment available to them for a period
of 12 hours before the contest. Look at the before and after photos... Conclusion: There are no ugly women. Only poor women..!!! The Second woman from the left
won the contest.
                        





9 comentários:

  1. que delicia esses livros nossa.... vc tem muito talento e muito bom gosto
    lendo o primeiro capitulo da estimulo a ler o restante muito bom mesmo parabens

    isabela, fortaleza

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  2. pois é oi isabela prazer meu nome é catarina eu sou de BH e tambem to aqui nesse mesmo instante que voce e concordo com tudo essa ceguinha tem mesmo muito talento uai
    meus parabens vc é talentosíssima adoroooooooo seus livros sao excelentes devoro eles adoro quando tem um novinho em folha pra eu ler
    muitoss beijos e abraços e parabenssssssssss

    catarina de BH sua leitora asidua

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  3. apaixonada..... essa é a palavra exata para meus sentimentos nesse momento
    "que livro fantastíco" nao quero que pareça um cliche,mas realmente é fantastico
    e eu chorei muito,e vou rever alguns conceitos a partir de hoje...torço muito por voce ceguinha ja torcia antes agora torço mas do que nunca,nao entendo como é possivel nenhuma editora ter encontrado voce eles nao sabem o talento que estao perdendo, mas acredito que voce irá fazer muiiiiito mas sucesso que voce ja faz
    um imenso beijo e nunca pare de escrever por favor
    meu nome é marta almeida e eu moro em ribeirao preto

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  4. olá claricemascena voce disse de joelhos?que é issominha querida escritora
    é simolesmente uma honra deixar um depoimento para uma pessoa tao talentosa como voce meus sinceros parabens sou sua seguidora e fan
    beijos marilia

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  5. nossa querida clarice mascena
    e com muito gosto que eu venho por meio deste comentario de parabenizar
    pelo seu magnífico blog
    muito delicosos seus livros
    ja li todos e amei cada um deles absolutamente
    vc é uma exelente escritora
    com amor e carinho
    danielle guaratingueta

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  6. oi ceguinha sou eu catarina de BH lembra-se de mim entao voltei
    voltei pra dizer que eu tava esperando o livro novo e obrigada por publica-lo
    adorei muito bom mas muito bom mesmo
    espero ler logo o proximo ta
    muitos beijosss e parabens mais uma vez

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  7. ola clarice gostaria de saber se vc ja postou os outros livros ou tem previsao da saga minha alma gemea é vc?
    ps:amo seus livros demais

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  8. Oi
    Achei essa historinha realista demais. Você vai de um extremo ao outro em seus romances.. Ainda não tem um estilo difinido.

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  9. Seus livros são diferentes de todos que já li(Diferente dos de outros autores/editores.
    São reais, falam a linguagem do povão

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